quarta-feira, 16 de junho de 2010

O que faz Psicose genial até hoje

Estreava hoje (16 de junho) em Nova York, há 50 anos, o filme que revolucionaria o cinema. Psicose (Psycho, 1961) mudou os rumos não só do gênero horror, mas de como a industria precisava agir.

Isso tudo vindo de um senhor inglês então de 61 anos de idade, com 32 anos de carreira, responsável por cerca de três dezenas de filmes, a maioria sucessos de bilheteria. Alfred Hitchcock teria aqui seu maior sucesso comercial.

Imitado e analisado à exaustão, à primeira vista o filme é de uma simplicidade única. Embora logo nos primeiros minutos aconteça a grande ousadia envolvendo a ladra arrependida Marion Crane (Janet Leigh).

A feitura dele é um caso a parte. Por ser considerado um veículo de comunicação de segunda classe, na época era quase sacrilégio falar em televisão entre o povo do cinema.

O velho Hitch, mesmo consagrado, entendeu que tal eletrodoméstico seria fabuloso para sua infindável busca por autopromoção. Abraçou a TV, dando seu nome a uma série de histórias curtas de suspense.

Alfred Hitchcock Presents deu tão certo que durou sete temporadas, entre 1955 e 1962. Ele ficou mais famoso ainda, reconhecido como “O Mestre do Suspense” até por quem nunca tinha ido assistir a seus filmes.

Usando a mesma equipe do programa, ele prometeu fazer o filme mais barato de sua vida. Ironicamente (ou não) se tornou o mais rentável.

Vem daí uma das contradições a respeito. Produções coloridas eram infinitamente mais caras, estavam se tornando comuns pela competição Hollywood VS. TV (ainda P&B), mas voltadas quase sempre para filmes com apelo comercial mais forte.

Como a promessa era de baixo custo, igual ao dos episódios, provavelmente venha daí a opção pelo preto e branco. Sem falar da intenção de fazer caixa com os telespectadores que já se acostumavam a assistir coisas sem cor na TV de casa.

Esperto, para promovê-lo, o gorducho disse que era P&B para não chocar a plateia com o vermelho do sangue na tela. A meia verdade é repetida como “curiosidade” até hoje.

No cinema de horror, o que fazia filas na porta dos cinemas eram os da produtora inglesa Hammer. Desde A Maldição de Frankenstein (The Curse of Frankenstein, 1957) o pequeno estúdio se deu bem ao reutilizar os monstros clássicos que os americanos já tinha usado e depauperado nos anos 30 e 40, o diferencial era justamente o sangue, muito sangue, em cores berrantes!

Assustar com Drácula, Frankenstein, múmias, consistia em tomar proveito da fé cristã da público. Se você não for um bom menino e adorar a cruz, olha só o que vai te acontecer, e assim por diante.

Psicose veio nos contar que o diabo não está num castelo empoeirado, numa época remota. Está entre nós, pessoas de mentes tão distintas! Quer coisa mais assustadora que essa?

Algumas produções europeias já tinham cantado a bola, como As Diabólicas (Les Diaboliques, 1955) de Henri-Georges Clouzot, que aliás, se baseava em livro que Hitchcock havia demonstrado interesse em adquirir os direitos. Ele não foi o primeiro, mas foi o primeiro com estrondoso valor comercial a apontar o caminho.

Semelhanças além das estéticas há no também francês Os Olhos Sem Rosto (Yeux Sans Visage, 1960) de Georges Franju. A sequência inicial do suspense, com uma moça suspeita ao volante, tem muitos frames quase idênticos à fuga nas estradas de Psicose.

Não é nada perto da obra-prima que Hitchcock dirigiu. Tão rico que cada vez que se assiste nota-se coisas desapercebidas.

Seja no tom da lingerie que Marion Crane vai trocando conforme muda de pensamento, seja nas dezenas de reflexos e sombras que os personagens vão mostrando em espelhos e vidros. A história trata das partes que a mente humana se divide desde os créditos iniciais desenhados por Saul Bass.

Mas há mais coisas aí! No documentário O Guia Pervertido do Cinema (The Pervert's Guide to Cinema, 2006) o psicanalista Slavoj Zizek aponta algo realmente genial!

A mansão Bates, onde vive o psicótico Normam, representaria as três partes em que Freud dividia a personalidade humana: id, superego e ego. Faz sentido numa película cujoo título se refere a um quadro psicopatológico.

O porão, onde ele esconde a mãe mumificada, e pratica a taxidermia, é o id, a mais profunda da psiquê humana. Lá estariam depositados os impulsos instintivos dominados pelo desejo de prazer.

Térreo e hotel seria o ego, parte da personalidade que está em contato direto com a realidade externa. Quando Norman aparenta ser uma pessoa comum, amigável.

Segundo andar, de onde se ouve os gritos da senhora Bates xingando as atitudes do filho, representaria, o superego. Espécie de polícia interna. É aquela voz que parece ser o senhor da razão, julgando nossos atos e, na maioria das vezes, censurando-nos.

No meio do conflito entre os desejos do id e a censura do superego, estaria o ego. O cenário principal do filme é a mente do assassino!

Definições psiquiátricas oferecidas por Psicanalistas "mente sana"

Veja também:
Ed Gein, o Norman Bates da vida real
Figurinos de Psicose e a mudança de conduta
Lobbycard brasileiro de Psicose



8 comentários:

paddy.rox disse...

adorei o post!
Acho que assistir psicose mudou minha percepção em muitos outros filmes.

Aliás, é uma obra incrível; é assustadora sem apelar para violência explícita, ao mesmo tempo em que deixa algumas coisas abertas à interpretação, mas sem ser vago.
Hoje em dia muitos filmes tentam criar uma atmosfera densa de mistério, e acabam sem saber explicar, deixando a gente a ver navios.

Enfim, eu poderia ficar aqui escrevendo horas sobre isso.

Parabéns, Miguel. Seu blog mata a pau sempre!

@paddy_rox

Miguel Andrade disse...

Paddy, estranhamente quando assisti na primeira vez eu não vi graça. Deve ser muito novo ou esperava algo além de um filme, olha que burro!

Agora quanto mais o assisto mais me encanto.

paddy.rox disse...

Quando eu vi a primeira vez, já tinha uns 16 anos... eu me lembro de o filme acabar e eu estupefato na frente da TV.
Claro que não poderia pensar tão profundamente quanto eu posso nos dias de hoje, mas causou efeito.

Miguel Andrade disse...

Paddy, eu gostei, mas não gostei um terço do que gosto hoje. Até pq, ele está muito saturado de tanta cópia, inspirações, sátiras, etc.

Leticia disse...

Miguel, ótima análise, ótima, ótima!

Terminei de ler (a serviço, mas foi um prazer) "A Casa do Delírio", sobre os casos do Manicômio Judiciário de Franco da Rocha. O real, a mente humana e suas distorções, isso sim é fascinante.

Monstros, diabinhos e cadáveres maléficos nunca fizeram minha cabeça.

Aliás, nada que envolva o sobrenatural. Comecei outro livro, sobre seres em Marte. Estou me torturando aqui, porque não tenho paciência pra essas coisas...

Miguel Andrade disse...

Letíca, queria rever Psicose com tudo isso em mente. Mas já assisti ao bichinho tantas veze...

Que livro! Vou tentar achar quando der.

eu acho essas coisas engraçadas em seu exagero.

Alan Oliveira disse...

Miguel,
Ótimo post do gorducho. Também não me canso de rever o filme. As vezes pego o DVD do box e vejo o doc e outras cenas. Se estiver passando na TV paga, paro pra ver. Pra mim o maior choque não foi o desfecho do filme (história), que acho bárbaro, mas sim o que Hitch fez em cada plano - ele realmente fala além da imagem e é esse tipo de elipse que não vemos mais por aí. E pensar que já se passaram 50 anos.
Abraço!

Miguel Andrade disse...

Alan, inteligente e popular! Dom de pouquíssimos.

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