sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Pink Flamingos e a receita de como promover um filme sem dinheiro

 Boa parte do orçamento dos filmes está reservado para promovê-los. No caso de filmes independentes, quando a grana já é bem curta, é preciso ser original, como foi Pink Flamingos (1972 de John Waters).

O cenógrafo (ou decorador de cenários) Vincent Peranio contou mais tarde que ele teve 200 mil dólares disponíveis. Boa parte foi gasta na compra do trailer e o resto tiveram que roubar.

Então o pôster do filme foi na boa e velha Xerox, sem arte elaborada nem nada. Bastou uma foto do trailer (porque afinal, custou caro) pegando fogo e algum texto.
Divine Monument
Pat Moran, uma espécie de faz tudo na filmografia de John Waters, lembrou no documentário It Came from... Baltimore!! (2005 de Mark Rance)que esta falta de recursos lhes forçaram a pensar estrategicamente. Com a popularização de caseiras de Super8 e semiprofissionais de 16mm haviam muitos filmes independentes e não queriam ser apenas mais um.

O jeito foi assumir o subtítulo “Um exercício de mau gosto” (An exercise in Poor Taste) de forma plena. Divine comendo cocô de cachorro, escondendo bife na calcinha, anus cantante, fellatio incestuoso, tudo foi de caso pensado.

E o trailer, ainda muito barato, foi apenas de pessoas saindo ultrajadas, enojadas, atordoadas de uma sessão de Pink Flamingos. Assista a ele no player abaixo ou clicando aqui.

A ideia de mostrar a reação popular no trailer é tão boa que os grandes estúdios utilizam até hoje, mas para filmes de terror. O caso mais bem sucedido talvez seja o de Atividade Paranormal (Paranormal Activity, 2007 de Oren Peli).

Agora, o próprio John Waters também emprestou um velho recuso promocional dos filmes de terror. Para as plateias ficarem mais tensas, filmes como Força Diabólica (The Tingler, 1959 de William Castle) anunciavam que as salas estavam providas de auxilio médico, caso alguém passasse mal dos nervos.

Para Pink Flamingos, era preciso pensar no estômago. Para tanto, algumas salas foram munidas de sacos de vômito lindamente ilustrados com flamingos cor de rosa.
BNation
E um filme que custou tão pouco ser reconhecido até hoje, inclusive entre os 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer (livro de Steven Jay Schneider), é porque eles conseguiram. Não foram apenas mais entre tantos naquele princípio da década de 70.

Veja também:
John Waters admirado com a obscenidade atual
John Waters só para baixinhos
Divine quase participou de Um Amor de Família
No camarim com Edith Massey

2 comentários:

Renato Oliveira disse...

Seu blog faz meus dias melhores. Parabéns e obrigado!!!

Miguel Andrade disse...

Obrigado, renato! :)

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