quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Prato preferido de Vadinho


Ipsis litteris a receita conforme publicada em 1966 no livro Dona Flor e Seus Dois Maridos de Jorge Amado, adicionados aqui apenas os grifos. E a gente lê inevitavelmente ouvindo na nossa cabeça a voz da Sonia Braga....

 RECEITA DE DONA FLOR: MOQUECA DE SIRI MOLE

Aula teórica: INGREDIENTES (para 8 pessoas): uma xícara de leite de coco, puro, sem água; uma xícara de azeite de dendê; um quilo de siri mole. Para o molho: três dentes de alho; sal ao gosto; o suco de um limão; coentro; salsa; cebolinha verde; duas cebolas; meia xícara de azeite doce; um pimentão; meio quilo de tomates. Para depois: quatro tomates; uma cebola; um pimentão.

Aula prática: Ralem duas cebolas, amassem o alho no pilão; cebola e alho não empestam, não, senhoras, são frutos da terra, perfumados.
Piquem o coentro bem picado, a salsa, alguns tomates, a cebolinha e meio pimentão. Misturem tudo em azeite doce e a parte ponham esse molho de aromas suculento.
(essas tolas acham a cebola fedorenta, que sabem elas dos odores puros? Vadinho gostava de comer cebola crua e seu beijo ardia). 

Lavem os siris inteiros em água de limão, lavem bastante, mais um pouco ainda, para tirar o sujo sem lhes tirar porém a maresia. E agora a temperá-los: um a um no molho mergulhando, depois na frigideira colocando um a um, os siris com seu tempero. Espalhem o resto do molho por cima dos siris bem devagar que esse prato é muito delicado. (ai, era o prato preferido de Vadinho!) 

Tomem de quatro tomates escolhidos, um pimentão, uma cebola, tudo por cima e em rodelas coloquem para dar um toque de beleza. No abafado por duas horas deixem a tomar gosto. Levem depois a frigideira ao fogo. (lá ele mesmo comprar o siri mole, possuía freguês antigo, no Mercado...

Quando estiver quase cozido e só então juntem o leite de côco e no finzinho o azeite de dendê, pouco antes de tirar do fogo. (Ia provar o molho a todo instante, gosto mais apurado ninguém tinha).

Ai está esse prato fino, requintado, da melhor cozinha, quem o fizer pode gabar-se com razão de ser cozinheira de mão cheia. Mas, se não tiver competência, é melhor não se meter nem todo mundo nasce artista do fogão. (Era o prato predileto de Vadinho nunca mais em minha mesa o servirei. Seus dentes mordiam o siri mole, seus lábios amarelos do dendê. Ai, nunca mais seus lábios, sua língua, nunca mais sua ardida boca de cebola crua!) 
Do livro Dona Flor e Seus Dois Maridos de Jorge Amado


A aula intercalada aos devaneios saudosistas da Dona Florípedes abre o apetite para tentar encarar o livro é um primor. Difícil será desassociar do filme Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976 de Bruno Barreto).

Na adaptação cinematográfica  a receita tem bastante destaque, mas é abreviada durante as lembranças da protagonista pós velório. Resumida é ainda um bônus do DVD distribuído pela Paramount.

Parte do texto original reaparece durante a aula de culinária em que Vadinho acaricia as nádegas das alunas. Mas aí a receita é de quibebe de camarão e depois sarapatel, não incluídas na obra original.

Não sei se ela se mete atrás de um fogão de verdade, mas Sonia Braga ficou tão célebre como cozinheira (por Dona Flor e Gabriela) que fez muitos anúncios na TV de produtos culinários, além de ilustrar capas de livros e revistas de receitas. Hoje seria convidada pra fazer uma visitinha ao Mais Você...

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