segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

3 filmes que ousaram não ter diálogos (e O Artista)

Oficialmente o cinema aprendeu a falar em 1927, com O Cantor de Jazz (The Jazz Singer de Alan Crosland ). A arte das imagens em movimento jamais passaria por outra transição tão ruidosa.

De um dia pro outro, astros, técnicos e artistas envolvidos em geral passaram a ser obsoletos. Precisaram recomeçar da estaca zero.

Embora a essência do cinema seja justamente contar histórias em imagens, filmes mudos jamais retornariam de forma comercial. Algumas experiências foram feitas nesses 85, mas pontuais.

Selecionei quatro filmes modernos que brincaram de contar histórias sem palavras. Faltarão alguns, evidente.

1- A Última Loucura de Mel Brooks (Silent Movie, 1976 de Mel Brooks) – Loucura mesmo! Brooks narra as desventuras do diretor que quer dirigir o primeiro grande filme mudo em 40 anos. A pá de cal 70’s no antigo esquema de fazer cinema em Hollywood veio por intermédio de comédias como esta e Homem e Mulher Até Certo Ponto (Myr Michael Sarne a Breckinridge, 1970 de Michael Sarne). Hollywood morreu! Viva Hollywood!

2- Fale Com Ela (Hable con ella, 2002 de Pedro Almodóvar) – O menos arrojado filme de Almodóvar é também um dos mais queridos pela plateia média. A inclusão no meio da narrativa do curta silencioso “Amante Meguante”, é lampejo de luz num roteiro mediano. No DVD, o curta é um extra à parte, com direito a making-off próprio.

3- Interstella 5555 (Interstella 5555: The 5tory of the 5ecret 5tar 5ystem, 2003 de Kazuhisa Takenôchi) A junção de quatro clips em animê, mais um punhado de outros com base no disco Discovery do Duft Punk formou um dos mais inusitados filmes a chegar as telas na década passada. Sem uma palavra, a experiência se assemelha aos primórdios cinematográficos, contrastando ao tema futurista da animação.

4- O Artista (The Artist, 2011 de Michel Hazanavicius) – Num tempo em que a ausência de cor já afugenta meio mundo da plateia, essa graciosa película muda já merece alguns créditos a mais. Estranho que mesmo com reconstituição de época impecável (o filme começa em 1927), fotografia e interpretações, ele é absolutamente moderno, não se encaixaria num legítimo filme do período.

Seria impossível que uma pessoa em 27 achasse que as interpretações over mudariam com a chegada do áudio, conforme o filme mostra. Isso era um estilo dos atores, não desapareceu até boa metade da próxima década.

Outra coisa importante, a história transcorre sobre um astro que se recusa a participar de películas sonoras. Quedas de estrelas nessa fase foram contadas algumas vezes em filmes como Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950 de Billy Wilder) e Cantando na Chuva (Singin' in the Rain, 1952 de Stanley Donen e Gene Kelly) de pontos de vista distintos.

É estranho ver um caso como o de George Valentin (interpretado pelo ótimo Jean Dujardin), em que o ator, apenas um elemento numa indústria gigantesca, tenha se recusado a participar. Geralmente atores ficaram inaptos ao áudio.

Filmes como Crepúsculo dos Deuses ou Cantando na Chuva retratam as vítimas da tecnologia, dos tempos que mudam e os que não conseguiram se adaptar. O Artista, absolutamente pertencente ao hoje, pervertendo a lógica histórica.

Mostra que não há escapatória, ou você adere ao novo ou é um dinossauro vaidoso e egoísta. Assim, embora se assemelhe no visual e ausência de diálogos a uma produção 20’s, sua narrativa está mais pra algo recente como Avatar (2009 de James Cameron).

A capa da revista estava em um CD de backup. Salvei há muito tempo de um lugar que não lembro mais. Se alguém souber a fonte, por favor!

[Ouvindo: September In The Rain – Frank Sinatra]

14 comentários:

Pierre W. disse...

Vale lembrar tbm de 'A Ilha Nua', de Kaneto Shindô (que continua na ativa aos 100 anos; seu último filme, aliás, esteve na disputa a uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano) e de 'O Baile', de Ettore Scola. Filmes que não tinham nenhum diálogo.

Miguel Andrade disse...

Pierre, sim! Como disse no post, devem faltar vários.

Esses três vieram na minha cabeça ao ver O Artista, pelo discurso com o cinema mudo direto.

Alberto disse...

"O Artista" é no minímo um bom simulacro.

Miguel Andrade disse...

Alberto, exatamente! É muito agradável como filme, mas o discurso dele é absoluto com 2012.

Usei Avatar como exemplo por ser o último grande sucesso recente. Repleto de tecnologia de ponta, com temática tecnológica/ecológica no grito da moda. rs

Thiago Doido disse...

Wall-E

Miguel Andrade disse...

Thiago, sim! Wall-E naqueles primeiros minutos é engenhosamente mudo também.

Alex Gonçalves disse...

Embora tenha sua parcela de diálogos, a animação "O Mágico" e a deliciosa comédia "Rumba" me fizeram lembrar muito algumas características do cinema mudo, movendo suas histórias mais pela imagem e o uso de música instrumental e menos pelas falas.

"O Artista" já é um dos meus filmes favoritos do ano. É bem verdade que há nele um espírito bem moderno, mas a maior parte do tempo me senti vendo a um filme rodado na transição do cinema mudo para o falado. Espero que o sucesso que ele vem obtendo incentive outros realizadores a fazerem experimentos parecidos.

Miguel Andrade disse...

Alex, achei o cara um absuuuuuuuuurdo de talento! Até o dentinho tordo como as pessoas de antigamente ele tem.

A mocinha é bem inferior. Não tem nem a beleza do começo do século passado.

Também gostei do filme. Achei divertido, leve.

Moyses Ferreira disse...

filme chato esse o artista. um curta tava bom!

Miguel Andrade disse...

Moyses, conseguiu prender minha atenção, mas tinha gente ao meu lado elétrica, falando sem parar! rs

Anônimo disse...

A capa pode ser daqui:

http://magazine-covers.lucywho.com/

Miguel Andrade disse...

Anônimo, se pode ser daí, qual será o motivo para que você não tenha acrescentado essa fonte no seu post?

Você deveria ter indicado a origem para que eu possa checar.

E mesmo na pose de um Flickr todo em inglês eu tinha a certeza que era de alguma brasileirinha, só pela atitude duvidosa, tão comum na Internet em português BR, esse imenso Orkutão.

Cleiton disse...

Talvez daqui? http://en.wikipedia.org./wiki/File:PhotoplayDec.jpg

Miguel Andrade disse...

Cleiton, anterior a isso! Cds dos idos em que Wikipédia ainda não tinha sido inventada! :))

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