segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Um Corpo Que Cai contado por cores

Obras primas podem ser visualizadas de incontáveis formas. Filmes como Um Corpo Que Cai (Vertigo, 1958 de Alfred Hitchcock), por exemplo, são tão minuciosamente cuidados que até poderiam ser assistidos sem áudio, nos guiando apenas pelas cores que são mostradas.

As predominantes são vermelha e verde. Trata-se de uma história sobre a paixão pelo imaginário, pelo que se constrói, manipula de acordo com nossa afetividade.

O verde é onipresente nos momentos oníricos. Dizem respeito às expectativas do protagonista Scottie (James Stweart), quando está imerso em sua mente.

Percebe-se bem cada aparição dos tons nos figurinos de Edith Head usados por Kim Novak (Madeleine/Judy). Se você ainda não assistiu a Um Corpo Que Cai (como assim?) deixe para ler este post depois.

Quando Scottie vê Madeleine pela primeira vez, o restaurante tem um absurdo papel de parede vermelho. O vestido dela tem duas faixas verdes gritantes, contrastando com todo o cenário.

Sabemos que ele está diante da garota que considera perfeita. A garota idealizada num local explicitamente artificial.

Como Madeleine, os figurinos são de cores neutras. Aparece com o famoso tailleur cinza, chega a usar uma capa bege sobre preto.

Essa pessoa não pertence ao nosso mundo nem ao de Scottie. Foi inventada pelo criminoso contando com o problema de agorofobia do detetive aposentado para ele ser a testemunha perfeita.

Quando ela acorda na cama do policial depois que foi salva da tentativa de suicídio, está nua envolta num lençol amarelo. Percebemos o quanto é valiosa ao homem que deveria protegê-la.

Ao aparecer na sala está apenas com um roupão vermelho. Imerso na teia, assim como o suéter que ele usa, o cenário tem várias coisas verdes.

Acabaram de se conhecer formalmente, mas entende-se toda a afeição dele por ela. Apaixonou-se pela mulher que profissionalmente perseguia.

Após todo o quiproquó da morte de Madeleine, após ter sido internado, como num sonho cruza na rua com alguém inacreditavelmente parecida com a amada. Judy (na verdade a que se fez passar por Madeleine) veste verde.

Depois do primeiro encontro/reencontro Judy escreve a carta contando a farsa, pronta pra fugir. Desiste da carta para tentar viver mentindo com o homem que a ama.

Para retomar o relacionamento escolhe um vestido lilás. Lilás é uma cor associada à morte, usada nas mortalhas que envolviam os cadáveres.

Pode ser compreendida como a amada que regressou da morte. Mas ela não é Madeleine, agora é Judy.

Em todos os encontros do casal, ela veste metade verde. É apenas metade da mulher que só existia na mente de Scottie.

Ao se sujeitar a ser remodelada, Judy usa marrom. Marrom, usada pelos abnegados e humildes franciscanos.

Vestindo o tailleur cinza novamente não só corre o risco de ser descoberta, mas de deixar de ser quem ela realmente é. Aceitará o risco de se anular talvez como prova de que também goste dele.

Com a fotografia esverdeada, Madeleine ressurge como que do além. Ele deslumbra-se, mas fica evidente que aquela mulher não é real.

O último figurino é um vestido preto. Quando por um ato falho ela escolhe a joia que foi de Carlotta Valdes temos sua sentença de morte.

Parece ainda o figurino do primeiro encontro, mas sem o verde. Scotty descobre a verdade e não a enxerga mais do mesmo jeito

Fica claro pelo luto que a segunda queda é fatal para o objeto de desejo dele. A mulher que viveu apenas para ele.

Um Corpo Que Cai já foi estudado e analisado inúmeras vezes nestes anos todos. Quis (correndo o risco de poder parecer redundante) apenas compartilhar minhas observações da vez mais recente que o revi.

Em Psicose (Psycho, 1960), também de Hitchcock, pode ser observado um jogo com os tons das lingeries da Janet Leigh, mesmo tendo sido fotografado em branco e preto. Veja clicando aqui.

[Ouvindo: Moonglow And Love Theme - George Duning]


5 comentários:

Penny Lane disse...

Oi, Miguel! Que post ótimo. O último que revi do Alfredinho foi "Os Pássaros", fiz uma análise para a aula da pós, inclusive te citei no meu trabalho no post que tu fez sobre o teste de maquiagem da Tippi Hedren. O bom mesmo era que o Tio Hicth era assim, cheio de dedinhos para fazer seus filmes. Beijo grande!

Moacir disse...

Miguel, que DELÍCIA de post!!! ADOREI! Vou rever Vertigo em sua homenagem no próximo final de semana.

Abração!

Miguel Andrade disse...

Peny, olha que honra!!!

E o bom é tudo isso tanto faz. os filmes são ótimos de qualquer jeito. :D

Também revi Os Pássaros não faz muito tempo. Ultimamente ando aguado para voltar a Rear Window.

Moacir, opa! Já valeu o post pela vontade de rever esse filme.

Leticia disse...

Que interessante, Miguel! Li duas vezes e provavelmente lerei mais uma. Estudando mesmo...

Miguel Andrade disse...

Letícia, reveja o filme assim que puder. São absurdos seus detalhes.

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