terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Boca do Lixo de Silvio de Abreu

Claudia Toledo teve sua grande chance no auge das pornochanchadas. Depois fez alguma coisa nas telenovelas, mas logo estava dedicada às comédias eróticas do teatro paulistano.

Quando conhece um empresário bem sucedido que diz ser seu grande admirador, vê a oportunidade de mudar radicalmente de vida e nunca mais precisar mendigar papéis na TV. Casam-se e passa a ser tratada como grande celebridade na cidadezinha natal.

O conto de fadas da atriz demora pouquíssimo a se desfarelar. Logo ele se torna esquivo, distante, com misteriosas saidinhas, além de ficar muito tempo trancado em seu escritório.

Em busca de informações concretas, aproveita uma das misteriosas ausências dele para vasculhar suas coisas. Na gaveta do escritório a maior surpresa: material pornográfico gay, um revolver e fotos do marido abraçado a um cara com o rosto rabiscado com dedicatórias amorosas no verso.

Sentindo-se enganada, logo estará clamando por sexo. É aí que cruza com o mestre de obras Tomás, com quem tem um romance e depois, cumplices, passam a arquitetar o assassinato do marido.

Nada, nem ninguém é o que parece. E é dessas falsas aparências que a (sem exageros) mirabolante trama de Boca do Lixo se desenrola.

Escrita por Silvio de Abreu em 1990, a minissérie teve a missão de testar o autor (a pedido do próprio) no horário nobre. Consagrado em novelas cômicas das sete da noite, colocou todos os seus conhecimentos de cinema clássico noir em 8 capítulos que a Globo Marcas Som Livre lança agora em DVD duplo.

Revendo, a grande revelação final ficou surrada. Abreu seguiu com sucesso escrevendo histórias popularescas para as novelas do horário nobre, e já repetiu a tal surpresa umas quatro vezes.

Mas embora seus trabalhos recentes interessem muito pouco, não há como negar o grande gênio que foi. Um Às em juntar conflitos morais e psiquiátricos com o que se imagina ser glamour social.

Por isso Boca do Lixo se mantém interessantíssimo após 21 anos. São 6h29 minutos que espantosamente não dá pra parar de assistir!

A ousadia não se restringe à temática homossexual, mas á escalação do elenco. Silvia Pfeifer modelo, estreava como atriz protagonizando sem fazer feio, embora pareça que nunca mais achou papel semelhante.

Galã por décadas, ou seja, acostumado a dar mais do mesmo infinitamente, Reginaldo Farias surpreende com as sutilezas da interpretação como o rico pederasta de caráter duvidoso. Até Alexandre Frota, que depois se tornaria ator de vídeos pornográficos, não compromete em nada.

Em torno deste triângulo, o sócio canalha Claudio Correia e Castro e Stênio Garcia como o delegado cinéfilo. Quase um detetive clássico do cinema americano 40’s, Garcia troca o cinismo pelo respeito a suspeita atriz, de quem é fã.

Gravada boa parte em locação, tendo hotéis de quinta, teatros na beira do Minhocão, inferninhos e ruas do centrão de São Paulo, ainda transformaram Avaré (SP) na fictícia Rio Negro. Com pretensões cinematográficas, o diretor Roberto Talma até aparece a lá Hitchcock numa cena passada no hipódromo.

A série marcava ainda um avanço tecnológico da TV Globo que tinha acabado de adquirir uma stead-cam. Equipamento aperfeiçoado para Kubrick em O Iluminado (The Shining, 1980), permite câmera móvel sem trepidações.

Portanto, espere muitos planos sequência para justificar o investimento. Curiosamente, seu operador, Francisco Mello Filho, tem destaque nos créditos, como se fosse uma das estrelas.

Boca do Lixo serve ainda para perceber o quanto a Globo evoluiu tecnicamente. Cenários mais realistas, luz superior, mas há muito tempo não alcança esta excelência artística.

Uma das poucas coisas que irritam na série e a emissora carioca não superou até hoje é a trilha incidental, gravada apenas num teclado bastante irritante, com notas musicais óbvias. Produtos refinados merecem orquestração, compositores de verdade, etc.

A edição do DVD


Se a Globo Marcas/Som Livre preocupa-se com a pirataria de seus produtos, está na hora de cuidar melhor do que vende. Seus DVDs são sempre bem pobres e relaxados, a começar pelas embalagens, menus, ausência de legendas...

Aqui ainda não há extras, mesmo sendo originário da televisão. Para Engraçadinha (1995), incluíram pelo menos matérias exibidas no VídeoShow.

Imagina se tivesse chamadas da época? Não compensaria comprar o DVD a baixar .avi na Internet?

Pior! Como os capítulos foram editados como se fosse um filme, e no primeiro episódio os créditos apareceram num plano sequência, não há a abertura original.

Ao final do primeiro disco colocaram o tradicional “estamos apresentando”, no segundo disco a história prossegue sem nada. No final, aparece a abertura com créditos correndo em cima.
Isso tudo pode ser frescura de quem ainda gasta em DVDs. O que é imperdoável mesmo é a qualidade da imagem do programa em si.

Foi restaurado, mas o resultado é variável durante as mais de 6 horas. Às vezes aparecem chuviscos da fita original e até uma mastigada, mostrando aquelas barras de cores quando a TV sai do ar.

O material original ter mais de vinte anos não é desculpa. Várias séries americanas com mais de 40 anos saem sempre em DVD com qualidade cristalina.

Também é bizarro (e que demonstra a falta de compasso da empresa com o consumidor) que os discos custam quase dez Reais a mais no site oficial da Globo Marcas/Som Livre do que nas lojas. Mesmo sendo fabricantes, mesmo não tendo que pagar os evidentes encargos das lojas físicas.


10 comentários:

Ed. disse...

Gostei do "ar" Joan Crawfordiano em algumas fotos! Da primeira e sexta foto, 'quase' lembra algumas das 'Almas' perdidas da Joan.. :)

Acho a Silvia Pfeifer bonita, apesar da eterna cara de adoçante.

Miguel Andrade disse...

Ed, são muitas referências. Ah, mas ela está bem aí.

Minha memória me traiu. Fui rever achando que ela estaria péssima.

Se puder, veja. É espetacular!

Alex Gonçalves disse...

Poxa, me interessei muito pela minissérie. Gosto quando produções nacionais investem no thriller. Eu mesmo fazia a festa quando a telenovela "A Próxima Vítima" foi exibida. Pena que, atualmente, esse segmento esteja praticamente extinto. Se eu encontrar o DVD numa Americanas na vida por um preço razoável comprarei.

Em tempo: Sílvia Pfeifer é uma das atrizes mais belas de nosso país!

Miguel Andrade disse...

Alex, nas lojas está por trintão. Acho um valor justo e vale a pena.

Rafael Cardoso disse...

Eu assiti quando passou, meu pai dizendo que aquilo não era pra criança (acho que o tema incomodava mais, isso sim), mas sempre via, até porque minha mãe não perdia.

Seu texto me deu vontade de rever, até pra fazer essa analise de como o Sílvio de Abreu perdeu a mão com suas últimas novelas.

Miguel Andrade disse...

Rafael, reveja com os olhos de agora. Continua excelente!

Igor Leoni disse...

A série é muito boa mesmo. Não vi quando passou a primeira vez pois era muito pequeno, mas quando o Silvio de Abreu lançou o roteiro em formato de livro, comprei e me apaixonei pela história. Li tudo em dois dias no máximo.
A história é realmente muito boa.
Mas discordo de você em um ponto. Silvia Pfeifer e Alexandre Frota não tinham cacife artístico para carregarem nas costas os papéis principais. Silvia ainda é bonita e carismática, mas o Frota chegou a ser cômico em algumas cenas: "NADA DISSO CLÁUDIA, NADA DISSO!".
Quem segurou a peteca na minha opinião, foram os sempre ótimos Reginaldo Farias, Cláudio Corrêa e Castro e Stênio Garcia. O monólogo do Farias falando sobre a condição de ser gay naquela época foi realmente impressionante.
Outro thriller brasileiro feito para a televisão muito interessante é As Noivas de Copacabana. Texto excelente de Dias Gomes em parceria com Ferreira Gullar, e os atores escalados são um pouco mais bem preparados para a dramatização. O próprio Farias está excelente, dessa vez no papel do policial estourado que persegue o serial killer de noivas, Miguel Falabella.

Miguel Andrade disse...

Igor, pelas minhas memórias da época eles estavam muito piores. Não fazem feio.

Frota tinha que ser aquele bolo de carne mesmo. Os dois foram bem aproveitados.

Muita ousadia colocar uma iniciante como protagonista. Tiro o chapéu pra isso, e queria entender o real motivo para que entre tantas, ser a então modelo Pfeifer.

Não tenho As Noivas. Já emprestei, mas acabei não assistindo.

Tentarei emprestar de novo assim que terminar de assistir umas coisinhas aqui.

Igor Leoni disse...

Eu li uma entrevista com o Silvio de Abreu em que ele disse que a atriz em mente para interpretar a Cláudia seria Cristiane Torloni, mas esta não pode aceitar o convite pois estava comprometida com outro projeto na época. Então o convite foi para Silvia, que aceitou.
Comigo foi o contrário, quando li o roteiro, imaginava na minha cabeça, quando visualizava as cenas, que eles estavam melhores. Como disse, Silvia ao menos é carismática, mas o Frota chega a estar cômico, o que acaba estragando a seriedade de algumas cenas.
Pode comprar Noivas sem medo, garanto que você vá gostar. Claro, é um estilo de thriller diferente. Não tem o clima noir de Boca do Lixo, está mais para um policial estilo perseguição gato e rato, entre policial (Reginaldo Farias) e assassino (Miguel Falabella).
Porém, achei a restauração feita muito nas coxas. Até mesmo a de Boca do Lixo está melhor. Em Noivas, em algumas cenas até aparece umas linhas azuis que cortam a imagem e irritam bastante.

Miguel Andrade disse...

Igor, legal saber disso. Torloni estaria bem também... Mas pensou se fosse a Helena Ramos? Teria fortes contornes de Sunset Boulevar! Uau!

Não acho cômico.

Ai! Não lembro se comentei no texto, mas chega-se a ver fita mastigada em Boca do Lixo.

Esses DVDs da Globo são bem ruinzinhos!

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