terça-feira, 19 de julho de 2011

Cinema: a difícil arte de escrever

A certa altura de Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevar, 1950 de Billy Wilder), William Holden reclama que boa parte do público deve desconhecer que existem roteiristas, sua profissão. Acham que os atores simplesmente abrem a boca e ponto.

Pessoalmente creio que roteirista de cinema é uma das funções mais ingratas do cinema. Um roteiro é apenas o ponto de partida para que um batalhão de outras pessoas trabalhe cada uma delas com sua visão particular sobre o que foi escrito.

Billy Wilder mesmo, diretor e autor de mão cheia, sempre se recusou a assinar sozinho os textos. Na biografia “Billy Wilder e o Resto é Loucura” (de Hellmuth Karasek, editora DBA) ele conta sobre a confusão que houve tanto na UFA, iconográfica produtora alemã em que começou, quanto em Hollywood, quando o cinema passou a ser sonoro.

Produtores acreditavam que seria necessário contratar dramaturgos e romancistas renomados agora que os diálogos seriam ouvidos. Isso foi mal sucedido em quase todos os projetos, obviamente porque elaborar um script é uma coisa, e um livro é outra bastante distinta.

O que mais me espantou, embora imaginável pela escala industrial do cinema norte americano, foi saber da situação dos roteiristas quando Wilder chegou a Hollywood na década de 30. Enquanto na Alemanha trabalhavam em casa, de forma artesanal, nos EUA marcavam ponto.

Existia em cada estúdio um stable, ou seja, estábulos que funcionavam como escritórios lado a lado para cada um, e recebiam o salario semanal como operários. Esses lugares aparecem em algumas cenas de Crepúsculo dos Deuses.

Eles tinham a obrigação de entregar toda sexta-feira no mínimo onze laudas datilografadas, sendo que na Paramount era em papel amarelo. Isso independente de coisas cruciais a um trabalho criativo/artístico, como inspiração, humor, ou qualquer outra coisa.

Um pelotão de pessoas datilografado sem parar qualquer tipo de ideia que pudesse gerar um filme. A Metro tinha 140 “writers” sob contrato, a Warner 110, e a Paramount 105.

Os três estúdios formavam, ainda pelas memórias de Wilder, uma espécie de triângulo das Bermudas do cinema, difícil de escapar dele. Interessante que Columbia (com fama de pobre, que investia muito mal até em suas estrelas), Fox e Universal, que embora tenham produzido muitos filmes naquela época considerados clássicos hoje, corriam por fora.

Finalizando com as palavras de Billy Wilder sobre a profissão: “Escrever roteiros é uma atividade especial. Seguramente, é preciso ter senso poético, e com certeza um pouco de talento dramático também não prejudica, mas antes de mais nada é preciso ter bastante experiência para poder pensar por meio de imagens – É necessário ser um construtor: um plot tem de ser igualmente seguro e construído de maneira tão estável quanto uma ponte sobre um grande rio.”

Precisa também de bom desapego a suas crias. Talvez seja o excesso de zelo pelo que foi escrito que sobre ao cinema brasileiro, invariavelmente com roteiros muito ruins, mas isso já é outro post.

[Ouvindo: Goodbye - Kevin Shields]

17 comentários:

Refer disse...

It is a hard, hard work. Faltam 10 para a meia-noite e só hoje, este modestíssimo redator aqui revisou um livro sobre desenho de 96 páginas, escreveu dois artigos, uns 6 mil toques cada, e traduziu 2 páginas inteiras de Príncipe Valente. :)

Miguel Andrade disse...

Refer, você é das antigas como redator! Uma máquina! :D

Luiz Alberto disse...

Nos anos de ouro de Hollywood tudo era setorizado. Os roteiristas escreviam em escala industrial, os diretores só conduziam as filmagens e não tinham mais contato com o material, que era entregue para o departamento de edição. Fora os produtores que mexiam em tudo sem consultar ninguém...

Como é que isso dava tão certo?

Miguel Andrade disse...

Luiz, sim! E como é que agora desandou tanto?

Os de hoje parece muito mais frios. Muito mais com cara de Bic Mac: sabor mais ou menos para agradar a qualquer um.

Luiz Alberto disse...

Esse é um dos grandes mistérios da vida.

A Dulce Damasceno de Brito cansou de entrevistar astros e estrelas no bandejões dos estúdios.

Sei lá, acho que esse aspecto de fábrica tornava tudo mais humano.

É difícil imaginar hoje em dia um fugurão comendo no refeitório junto com a turma de eletricistas por exemplo. Qualquer Zé Ruela hoje tem trailer e mil regalias...

Não sei se isso tem alguma influência, mas gosto de pensar que sim.

Miguel Andrade disse...

Luiz, falando na Dulce, pô, os caras a recebiam em seus trailers. Tudo relax.

Super estrelas mas mais humanas.

Hoje, qualquer merdinha que acabou de aparecer dá aquelas entrevistas sentado numa poltrona com o poster ao fundo fazendo cara de tédio.

Luiz Alberto disse...

Hoje qualquer script passa por 1500 tratamentos e leva meses, anos pra ser terminado. E mesmo assim é cada vez mais difícil ver algo que preste.

Pensando nesse esquema que você falou, imaginei como um filme como Casablanca deve ter sido escrito.

O cara presisonado, chefe enchendo o saco e mais uns um monte de textos atrasados no bolo.

Como é que saía tanta obra-prima?

Miguel Andrade disse...

Luiz, reza a lenda que Casablanca foi catástrofe. Foi sendo escrito e reescrito enquanto filmavam. E ROLOU! Hahaha

Leticia disse...

Refer, me explica como: eu QUERO DE VOLTA meu ritmo fordista de produção!

Miguel Andrade disse...

Letícia, olha, bem dito! Imploro pela mesma dica!

Refer disse...

Bem, vcs podiam começar se livrando das tais 'redes sociais', Orkut, FaceBook, Twitter etc. que roubam um tempo dukacete da gente.

Miguel Andrade disse...

Refer, faz sentido. Ando evitando ou usando cada vez mais com moderação.

Super energia desperdiçada.

Leticia disse...

Eu tenho HORRÔ a USAR rede social. Serve bem a quem ainda não teve a ficha caída a respeito de sua importância no mundo.

Miguel, você sabia que você me convidou para o G+? Acho que não, né?

Pois é, eis o X da questão. Tudo muito invasivo, você clica e não sabe o que eles estão fazendo com sua santa figurinha.

Orkutização do mundo...

Miguel Andrade disse...

Letícia, convidei meio mundo automaticamente, creio.

Tô bem empapuçado de rede social. Já é um esforço daqueles conviver com gente no mundo real, imagina o quão ridículo é, por livre vontade aqui.

Leticia disse...

Pois é. Fora aquelas pessoas que você NÃO QUER VER, nem em avatar.

LH disse...

Aí eu não sei se alguém aqui conhece o blog Sex In A Submarine (http://sex-in-a-sub.blogspot.com/), de um roteirista profissional. Eu uma época acompanhava bastante, e ele às vezes desabafava BEM sobre a dureza da missão hoje em dia de escrever um filme. Inclusive descobri o blog na época do lançamento de Robin Hood, onde o William Martell contava a história sobre como um roteiro a princípio intitulado "Nottingham" meio que "virou" o filme que foi parar nas telas.

Quanto às redes sociais: já deletei meu Orkut, meu Twitter eu abandonei, Google+ eu não quero nem passar perto, e só vou manter o Facebook por conta de alguns amigos do outro lado do mundo. Cansei desse esqueminha de viver dentro do mundo virtual. E pior ainda: tendo que aturar todo mundo gritar que a vida deles é mais interessante do que a sua. Se pelo menos fosse verdade, vá lá.

Miguel Andrade disse...

Letícia, justamente! Acho graça que o povão, povão mesmo, acostumado a ser subserviente continua indo atrás das porcarias que a TV nos impinge até em redes sociais.

LH, é isso! Não deve ser fácil mesmo até hoje em dia.

Filmes não são quadros que basta uma pessoa com pincel, tinta e uma tela para executá-lo. Imagino a dor desses roteiristas...

Quanto ás redes tem isso também. Gente boçal arrotando o quão cool é. Quem precisa disso?

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