sexta-feira, 29 de abril de 2011

Bela Lugosi na capa da Folha!

Morreu Bela Lugosi – HOLLYWOOD, 17 (U.P.) Bela Lugosi faleceu ontem enquanto dormia. O corpo do ator de filmes de Terror foi encontrado sem vida por sua esposa às 21 horas e 45 minutos.
O médico diz que Lugosi sofria de arteriosclerose, mas acredita que o ator tenha sido vítima de um colapso cardíaco. Lugosi, que morre aos 73 anos, tornou-se famoso por sua atuação no filme "Drácula". Estava muitos anos sem trabalhar e no ano passado pediu internamento num hospital para se submeter a tratamento, dada a sua inclinação por toxicos.
E assim, com foto promocional de Drácula (1931), a Folha da Manhã (atual Folha de São Paulo) noticiou o falecimento de Bela Lugosi na edição de Sábado, 18 de agosto de 1956. Nada mal para quem teria pedido pra ser enterrado com a capa que seu mais conhecido personagem usava.

Leio uma coisa destas e imediatamente a “rádio mental” começa a tocar Bauhaus com Bela Lugosi's Dead... Uma busca pelo nome do ator no Acervo da Folha de São Paulo nos tempos em que ele vivia, é um fantástico espelho da ascensão e queda de um ícone.

Conforme foi ficando famoso na década de 30 cresce o número de ocorrências no jornal. Auge nos anos 40 até sua derrota ao vício da morfina e heroína nos 50.

Curiosamente, é citado pela primeira vez antes do enorme sucesso de Drácula. Em 19 de agosto de 1931 seu nome consta numa notinha sobre a estreia de Mocidade Louca (Wild Company), entre um anúncio de liquidação do Mappin e do filme Monte Carlo de Lubitsch.

A produção Drácula da Universal havia sido registrada pela primeira vez no periódico paulistano em 22 de agosto do ano anterior. “'Dracula' peça theatral deverá ser dirigida por Tod Browning (...)”.

Quando estreou no Brasil, a crítica de sexta-feira, 28 de agosto de 1931 o recebeu com calorosas palavras: "Romance mysterioso, romance carregado creaturas e cousas do outro mundo, eis o que é “Dracula”, filme da Universal, que está no cartaz do Alhambra...
Os "habitués" do cinema que gostam de trabalhos fortes, emoções violentas, "frissons" não devem perder essa opportunidade”.

E os elogios duraram edições e mais edições. Quase sempre comparando este pontapé na fase de ouro do horror 30’s com O Gato E O Canário (The Cat and the Canary, 1927 de Paul Leni).

Em meio ao estrondo, a Universal quis que o ator trabalhasse como o Monstro de Frankenstein, próximo filme deles a adaptar romances góticos. Existem até anúncios em que Lugosi aparece em tal papel.

Ele se recusou, lendariamente alegando que o personagem não condizia com seu talento e a máscara esconderia seu rosto. Enquanto isso, Boris Karloff, a muito esperando uma boa oportunidade em Hollywood, topou virar o monstro sucessor da Universal.

Lugosi só retornaria ao estúdio quando ele já tinha trocado de mãos nos anos 40.Vinham fazendo uma série de filmes menores utilizando seus monstros Drácula e a criatura de Frankenstein.

Assim coube ao antigo Drácula o papel do ajudante Igor, em O Fantasma de Frankenstein (The Ghost of Frankenstein, 1942 de Erle C. Kenton ). Personagem muito menor, mas, particularmente falando, sua melhores atuação.

Em franca decadência, aceitou o papel que havia recusado dez anos antes em Frankenstein Encontra o Lobisomem (Frankenstein Meets the Wolf Man, 1943 de Roy William Neill). A essa alturas, karloff já nem aceitava mais o personagem, bem sucedido, escolhia livremente em que trabalhar.

Uma das últimas vezes que encontramos Bela Lugosi no acervo da Folha em relação a um trabalho novo é no caderno de Economia e Finanças em 17 de dezembro de 1947. Seu nome aparece em segundo lugar, abaixo de Lon Chaney no anúncio de Bud Abbott e Lou Costtelo às Voltas Com Fantasmas (Bud Abbott Lou Costello Meet Frankenstein, 1948 de Charles Barton).

Embora marcado pelo Drácula que fez em 1931 e as contáveis cópias com vampiros e similares em que participou, teve apenas nesta comédia a oportunidade de repetir o papel. Já haviam se passado 16 anos que o filme de Tod Browning havia estreado.

E pronto! O ator não interessou mais à imprensa cultural. A nota de seu falecimento em 1956 comenta que ele estava há muito sem trabalhar e seus problemas com drogas haviam sido revelados um ano antes.

Nesse ponto sua biografia cruza com a de Edward D. Wood Jr., posteriormente conhecido como “O pior cineasta de todos os tempos”. Quando Tim Burton filmou a biografia de Ed Wood em 1994, Martin Landau levou o Oscar de ator coadjuvante interpretando Bela Lugosi.

O dramático momento em que Wood convence seu amigo Lugosi, esquecido pela glória de Hollywood, a se internar como dependente químico foi noticiado aqui no Brasil. Quando a imprensa descobriu que o velho astro estava em maus lençóis, voltou a interessar.

Foi publicado na coluna “O Teatro da Vida apresenta:” (19/05/1955) que internado e na miséria, os amigos fizeram evento para arrecadar fundos. O texto termina dizendo que pela sua expressão, a renda não deve ter sido má.

Como se vê no filme de Burton, Lugosi foi despejado do hospital por falta de dinheiro. Saindo dali, Wood filmou os trechos que utilizaria postumamente em Plan 9 from Outer Space (1959).

Ainda participou da premier de A Noiva do Monstro (Bride of the Monster, 1956 de Edward D. Wood Jr.). Aliás, na foto que a Folha publicou, os amigos que aparecem segundo a legenda são Loretta King e Toni McCoy, protagonistas da bomba cinematográfica.

A parte boa de tudo isso é que “Bela Lugosi” continuou aparecendo incontáveis outras vezes no jornal durante as próximas décadas! Principalmente graças às reprises de seus filmes na TV.

Leia muito mais sobre Bela Lugosi

1 comentários:

carlosm42 disse...

Muito legal este post Miguel !
Bela Lugosi sempre presente aqui no La Dolce Vita

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