quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Gostei de O Lar das Crianças Peculiares e vou defendê-lo!

Tim Burton não fez feio em O Lar das Crianças Peculiares (Miss Peregrine's Home for Peculiar Children, 2016). Não que o filme seja memorável, mas também não aborrece e ainda nos entrega um Burton legítimo como há muito tempo não víamos.

1 - Tim Burton de raiz
Por muito tempo se convencionou de que o diretor era sinônimo de árvores retorcidas, figuras sombrias, etc. Se convencionou de que isto era seu estilo e realmente até seja, mas apenas a superfície, o óbvio.
Burton sempre foi fiel o um único tema, um tanto quanto expressionista: A população ordinária contra o homem. O monstro nem sempre é o maluco deformado, mas pode ser aquele pacato morador do subúrbio, sempre bradando ser gente de bem.
Parece sempre nos perguntar: Afinal, podemos confiar apenas nos nossos olhos? Isso sem perder a maestria de ser popular, de conversar com as massas, coisa que O Lar das Crianças Peculiares só não é totalmente eficaz pela duração e excessos de vai e vem da trama.

2 – Autocitações de montão
As mais evidentes talvez sejam as topiarias similares as vistas em Edward Mãos de Tesoura (Edward Scissorhands, 1990).
Mas há várias e várias outras a serem descobertas. Como o personagem da atriz O-Lan Jones que remete ao da mesma atriz em Marte Ataca! (Mars Attack!, 1996),...
... O trem fantasma vintage de Ed Wood (1994)...
... Ou ainda a escultura decorando o escritório da psicóloga que poderia bem ter sido feita por aquela artista plástica modernosa de Os Fantasmas Se Divertem (Beetlejuice, 1989).

3 – Efeitos especiais retrôs
2016, computação gráfica a mil, e Burton tentou usar o mínimo possível dela. Boa parte do que vemos são efeitos ópticos e trucagens mecânicas
.Ainda se deu ao luxo de incluir sequencias em stop motion. Técnica clássica que tem no diretor seu principal nome no cinema moderno.

4 – Excelente escolha de elenco

O casting foi tão apurado (além do talento) que conseguiram encontrar versões exatas do protagonista Asa Butterfield com menos idade.
Tem um Terence Stamp adolescente também, mas acho que é uma incrível máscara digital. Aliás, Stamp no elenco é outro hábito de Burton, resgatar grandes atores longe do seu auge.
5 – O mundo maravilhoso do cinema fantástico clássico
Temos o retorno de outra especialidade de Burton: Inundar seus filmes com citações a muita coisa legal do cinema fantástico. Da Hammer Films às produções góticas em forte contraste de Roger Corman, é possível encontrar o espírito de tudo em O Lar das Crianças Peculiares.

Três coisas evidentes são os infectados de Expresso do Horror (Horror Express, 1972 de Eugenio Martín)...
...  O Iluminado (The Shining, 1980 de Stanley Kubrick)...
Sem esquecer  do exército de esqueletos, clara homenagem ao mestre Ray Harryhausen. Muita gente já tinha feito (Leia mais aqui), estranho como logo Tim Burton demorou tanto pra fazer.
6 – Um filme assustador “para crianças”
O diretor já disse em muitas entrevistas que é quem ele é graças aos filmes de terror (como os da Hammer) que assistia enquanto criança. E isso pode explicar o limite alcançado aqui.

Embora eu não seja uma criança pra saber se está ok, claro, tentei me colocar no lugar de uma. Deu pra sentir medinho sem querer sair correndo.

7 – Cameo do diretor!
Tim Burton não é Hitchcock, mas tem uma super rápida aparição aqui! Tão raro quanto rápido que dá pra ficar em dúvida de quem é.


Ele não dava as caras sem seus próprios filmes desde As Grandes Aventuras de Pee-wee (Pee-wee's Big Adventure, 1985), o seu primeiro longa metragem. O que deve ser por si só um bom sinal do que vem por aí.

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