sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Avesso da cena: O beijo do Zé do Caixão

 Nada nunca é lá muito simples na filmografia do José Mojica Marins. Foi preciso muita sapiência para conseguir a sequência do beijo em Esta Noite Encarnarei No Teu Cadáver (1967), segundo sua biografia Maldito de André Barcinski e Ivan Finotti.

A atriz Nádia Freitas, que interpretou Laura, o principal papel feminino da fita, era muito bonitinha de rosto e corpo e até havia sido coroada Miss Boliche do Ipiranga 1965. Mas para surpresa geral, durante a rodagem se mostrou geniosa como uma legítima diva hollywoodiana.
Mas este não foi o único problema com a moça segundo o livro.  Quando Mojica foi ensaiar a cena do beijo esbravejou “Meu Deus! Mas sua boca fede demais!”. 
A equipe toda (que estava por aqui com ela) gargalhou e Nádia constrangida culpou estar horas sem comer nada. O diretor mandou irem à vendinha ali perto e comprar cravos da índia pra ela mascar, mas não adiantou nada.

Tentaram pastilhas, folhas de hortelã, gargarejos e até um chá caseiro a base de camomila, tudo sem sucesso. O hálito sobrevivia a qualquer coisa.

Muito inventivo, poucas obstáculos faziam Mojica desistir de alguma ideia em seus filmes, mas desta vez parecia não ter jeito. Até que observou que a barba do assistente de produção Eduardo Lafon era espeça e escura como a dele.

Perguntou pro rapaz se ele queria aparecer na fita: “Mas é lógico!”. “Então tá! Você vai ser meu dublê na cena do beijo”, disse Mojica que depois explicou ao câmera o ângulo que devia filmar para que  na montagem ninguém perceba ser outra pessoa beijando a atriz.
E assim foi feita acena imprescindível de Esta Noite Encarnarei No Teu Cadáver, obra prima do nosso cinema. Editada parece uma cena de beijo sem nenhuma dificuldade, mas foi preciso criatividade de Mojica.

Lafon foi guerreiro em enfrentar o terror de hálito, mas pelo menos conseguiu aparecer no filme, mesmo que ninguém saiba.  Décadas mais tarde ele se tornaria chefão da Record naquele auge conquistado pela TV do Bispo nos anos 90 e ao morrer em 2000 era superintendente artístico do SBT.
            Eduardo Lafon (à esquerda) durante seu trabalho na TV Record                                   CartãoDeVisita
O mais legal dessa história é que algumas páginas antes é narrado todo o pavor das atrizes em terem que interpretar de baby-doll com caranguejeiras passeando pelo corpo, cobras se enroscando pelo pescoço sob as ordens enérgicas do diretor. Mas nada disso devia se comparar aquele hálito...


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