quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Bette Davis cara a cara com sua maior rival

A rivalidade entre Bette Davis e Joan Crawford é muito conhecida (e festejada!), mas por muito tempo Bette nem se importava com Crawford, elas nem faziam parte do mesmo estúdio. Seu probleminha era Miriam Hopkins com quem teve o desprazer de trabalhar não uma, mas duas vezes.

Tudo teria começado porque Miriam Hopkins encanou que Bette estava apaixonada por seu marido, o diretor Anatole Litvak. Para azedar ainda mais, Bette havia ganhado o Oscar por Jezebel (1938 de William Wyler), papel que Hopkins havia interpretado com sucesso no teatro e esperava ser chamada para o filme.
Contratadas pela Warner e mantidas pelo estúdio como grandes estrelas, ambas foram escaladas para Eu Soube Amar (The Old Maid, 1939 de Edmund Goulding). Todos sabiam da rixa entre elas e esperavam as obvias faíscas.

Logo de cara Bette Davis percebeu que a colega estava interpretando de forma muito mais suave e gentil do que o papel pedia, e encarou isso como uma forma de conquistar a simpatia do público, roubando-lhe o filme. Hopkins ainda acentuou seu sotaque natural do sul, para realçar o falso da rival.

Como de praxe, negavam publicamente qualquer problema entre elas. Com bom humor aceitaram, inclusive, posar para a publicidade usando luvas de boxe.
Classic Movies Digest
Quatro anos depois foram novamente escaladas para Uma Velha Amizade (Old Acquaintance, 1943 de Vincent Sherman). Bette ficou possessa em ter que dividir novamente os sets  com a outra, mas teve que concordar que ela era o melhor nome para interpretar uma “bitch”.

Já Hopkins, que mesmo tendo se tornado uma estrela de menor peso, fez uma série de exigências, inclusive um salário maior que o da inimiga, aquela altura um dos principais nomes femininos de Hollywood (e o primeiro a aparecer nos créditos dos dois filmes que elas estrelaram).  Muito mais armada desta vez, foi trabalhar desde o primeiro dia disposta infernizar o máximo que podia.
Para espanto geral chegou vestindo seu antigo figurino de Jezebel nos palcos, aquele vestidão vermelho.  Bette Davis dando baforadas viu logo que as filmagens seriam longas e duras como rocha. 

O que ela passou nas filmagens de Uma Velha Amizade foi único em sua extensa carreira. Nem Joan Crawford fez um terço durante O Que Aconteceu com Baby Jane? (What Ever Happened to Baby Jane?, 1962 de Robert Aldrich).

Todas as tomadas que as duas conversavam e a câmera estava no ombro de Miriam mostrando Bette, Miriam acendia um cigarro, passava o isqueiro pelo rosto da colega, olhava em outra direção. Em planos que estivesse fora não ficava para dar o contraponto, ia arrumar as almofadas do sofá, se abaixava pra catar no chão algum grampo imaginário.
Quando Bette Davis (conhecida por primar pelo profissionalismo) reclamava, docilmente lhe dizia que ninguém estava olhando pra ela mesma. Foi reclamar ainda ao diretor que Davis estava ganhando muito mais closes que ela, Vincent Sherman lhe garantiu que mesmo se fosse sua mãe ali, só receberia os closes necessários a contar a história.

Assumindo a má vontade passou a fingir que sofria de surdez toda vez que Bette falava alguma tirada ácida contra ela. Abria a bolsa e pegava um aparelho auditivo e depois lamentava ele não funcionar.

Numa tarde Bette Davis passa por uma loja de discos e vê a trilha sonora do filme: fica não menos que histérica com a Warner! Disse que jamais autorizou aquela capa, que a letra sobre a imagem dava a entender que ela faziam papel de lésbicas apaixonada.

E assim ficou semanas a fio reclamando do suposto lesbianismo. De qualquer forma, não existe vestígio daquela capa hoje em dia na internet.

Tensa, algumas vezes Bette teve o ímpeto de esbofeteá-la e ela não se mexia, apenas virava o rosto dando a outra face. Bette comentou em alto em bom som que a rival havia interpretado uma cena como um cadáver e no outro dia lá estava Hopkins no estúdio vestida de luto dos pés a cabeça.
Miriam Hopkins teve que interpretar uma longa sequencia melosamente dramática e Bette ficou nos bastidores narrando baixinho como se fosse uma corrida de cavalos. Numa manhã Hopkins estava tão nervosa que escorregou no sabonete ao sair do banho, bateu a cabeça tendo que levar pontos na orelha, sem dúvida saiu espalhando que foi Bette quem havia posto aquele sabonete ali.

Chegou dia de filmar a grande cena, talvez a mais famosa do filme, em que Bette Davis furiosa chacoalharia Hopkins pelos ombros e a jogaria num sofá. Foi um grande evento! Todo o elenco, mesmo os que não tinham nada a fazer naquele dia, apareceram ao set, técnicos de todos os filmes que estavam em produção também foram pra lá ver.

E não foi fácil! Poucos segundos levaram a tarde toda para ficarem prontos porque Hopkins amolecia o corpo pra outra não conseguir lhe sacudir. Bette protestou que assim era impossível, o diretor pediu “pelo amor de Deus” para Hopkins brigar e ela disse: “Mas estou brigando com Bette”.
Bette Davis vendo que havia uma plateia extra tratou de provocar a rival para ela gritar, coisa que não conseguiu, pelo menos ali na frente de todo mundo. Dizem, segundo o biografo Charles Higham de Bete Davis, que em casa Hopkins berrou a todos os pulmões para quem quisesse ouvir sua raiva.

Com tudo isso, mais o texto sendo constantemente reescrito, muitas vezes a pedido de Bette Davis, a rodagem conseguiu ficar nada menos do que 36 dias atrasada. As atrizes ainda começaram a faltar alegando vários problemas de saúde, as vezes as duas ao menos tempo.

E ainda assim o filme foi um grande sucesso daquele ano, o mais comentado antes de ficar pronto. Todas as desavenças ficaram públicas e notórias o que levou o público a ir ao cinema como quem vai assistir a um campeonato de pugilistas.

Veja também:
Com a maldade na alma: Joan Crawford por Bette Davis

1 comentários:

Xaverico disse...

Essa história que você contou na matéria sera contada na mini-série ‘Feud’ e as grandes divas do passado serão interpretadas pelas divas atuais Jessica Lange e Susan Sarandon, liderando um elenco que também inclui Alfred Molina, Stanley Tucci, Judy Davis e Dominic Burgess. Vai contar a história da rivalidade lendária entre duas das maiores estrelas do cinema de todos os tempos – Joan Crawford (Lange) e Bette Davis (Sarandon), e como elas se uniram em 1962 para colaborar em um filme que cada uma esperava reviver, assim, suas carreiras.

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