quarta-feira, 20 de julho de 2016

O estranho caso do navio fake em Marnie

Com os avanços da computação gráfica no cinema é cada vez mais difícil ser tolerante com resultados artificiais. Com filmes clássicos e antigos aceitamos com mais facilidade quando os pegamos mentindo.

Acho que qualquer um que tenha assistido Marnie, Confissões de Uma Ladra (Marnie, 1964 de Alfred Hitchcock) comenta sobre o navio ao fundo da rua em que a protagonista cresceu. Talvez por ser no filme de um diretor tão perfeccionista.

Incomoda, mas não tanto quanto aquele dedão de plástico em Disque M Para Matar (Dial M for Murder, 1957). Mas, né? Vamos focar agora no navio mal feito de Marnie.
No livro “Hitchcock and the Making of Marnie”, o autor Tommy Lee Moral aposta que o navio foi proposital ao conversar com o pintor Albert Whitlock e outros. Mesmo com proporção, luz e perspectivas errados, Hitchcock “quis esta imagem ameaçadora porque era uma memória muito importante de sua infância".

Outro livro que discute o navio estranho de Marnie é  "The Wrong House: The Architecture of Alfred Hitchcock" de Steven Jacobs.  Nele o designer Robert Boyle também aposta na intencionalidade: "Hitchcock estava tentando chegar a algo que você não pode ver. Ele estava tentando contar uma história de coisas que não são totalmente evidentes... Ele estava tentando realmente cavar a psique de uma mulher ".

Hitchcock se recusou a ir até Baltimore filmar um navio de verdade atracado, ele detestava locações. A solução foi trabalhar com backdrop, uma pintura gigantesca de fundo, técnica muito comum no cinema, no caso, trabalho do artista Whitlock.
Não pense que por ser um filme de 1964 eles acharam que estava natural. No documentário The Trouble with Marnie (2000 de Laurent Bouzereau) consta que a equipe reclamou assim que assistiu as provas do que havia sido filmado naquele dia, mas o diretor disse que tinha que ser assim, estava bem do jeito que estava.

Apenas muito mais tarde Hitchcock reconheceu que não estava bom, segundo o produtor Hilton A. Green em entrevista. Ainda conforme as memórias dele as pessoas ridicularizaram aquilo, considerando um recurso ultrapassado, mas pessoalmente ele acha que o diretor estava preocupado com outras coisas no filme.

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