sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Inflação, segundo a ditadura militar, era uma vadia a ser combatida!

Assista no player abaixo (ou clicando aqui) a uma belíssima animação financiada pelo Governo Federal do Brasil em 1966. Belíssima e rara como qualquer animação feita antigamente no país, o filme tem forte estética 60's e chega a flertar com o terror.

A produção é do extinto Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), fundado em 1936 na Era Vargas. De lá saíram alguns curtas como este, que proporcionavam a artistas locais trabalhar com a dispendiosa técnica da animação, embora promovendo políticas duvidosas.

“A Inflação” é dirigido por Jorge Bastos, cartunista da histórica revista Tico-Tico, um nome hoje quase esquecido. Conforme dados da Cinemateca Brasileira, o filme foi feito por encomenda do governo e posteriormente modificado à revelia do autor.

Outro nome envolvido e agora pouco lembrado é o da atriz e cantora Nelly Martins (grafado nos créditos como Nely), dona da voz sexy da inflação. Apareceu em alguns filmes populares e chegou a participar de novelas nos primórdios da TV Tupi.

Ela abandonou a carreira artística em 1966 ao se casar com o Maestro Radamés Gnatalli e se dedicar a estudar medicina. A locução para esta obra pedagógica estatal é um dos últimos trabalhos como atriz.

O maior destaque entre os participantes fica por conta do maestro Rogério Duprat, responsável pela trilha sonora, função que havia abraçado a partir de filmes como Noite Vazia (1964 de Walter Hugo Khouri). Mais tarde, Duprat, um dos idealizadores da Tropicália, se manifestaria contra o regime político vigente.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Xuxa só para possuidinhos



E surpresa no quarto do menino endemoniado que será exorcizado! Xuxa faz uma aparição involuntária no filme espanhol O Dia da Besta (El día de la bestia, 1995 de Álex de la Iglesia).

Nunca tinha reparado nisso, até que o Paulo Blob postou um frame no Facebook dele. Oportunidade para rever este filme, uma das mais felizes e inteligentes misturas de terror com humor negro.

Desconheço se a lenda urbana do pacto com o tinhoso tem proporções internacionais ou é mera coincidência. Ainda mais porque a brasileira tentou emplacar lá fora numa época pré internet, quando era difícil informações não oficiais trafegarem pelo globo.

O pôster da Xuxa na parede é a arte da capa do CD El Pequeño Mundo que ela lançou no mercado de língua espanhola em 1994. Segundo este blog de fãs, ele é o mesmo Sexto Sentido distribuído no Brasil, mas em castelhano.

E é justo nesse disco que tem Juego De La Rima (Jogo da Rima), a versão da loira para a música The Name Game de 1964. Com a letra original em inglês a canção ganhou recentemente uma inusitada popularidade ao aparecer no seriado American Horror Story: Asylum.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

A Hora do Espanto 2 ou os bons tempos vampíricos estão de volta?

  E não é que A Hora do Espanto 2 (Fright Night 2 – New Blood, 2013 de Eduardo Rodriguez) supera com folga as expectativas? Mas não se engane, não se trata de um remake do filme de 1989.

Nem tão pouco parece ser sequência da produção de 2011. A única ligação é um personagem chamado Peter Vincent que apresenta um programa de TV, no caso um daqueles realitys que tentam descobrir monstros de verdade em lugares supostamente assombrados.

Mas ele não é mais interpretado pelo “Doctor Who” David Tennant. Ninguém do elenco anterior sobrou, afinal, a trama anterior não interessa mais em nada, não é como o homônimo, uma história de revanche em que uma vampira aparece pra vingar o irmão morto.

 É quase (não se assuste com a comparação) uma reimaginação do filme de 1985. Só que tendo uma mulher como vampiro principal e transcorrendo na Romênia, onde jovens viajam para estudar, não num subúrbio norte-americano.

Estão lá os adolescentes onde o amigo mais bobinho entrará logo na mira da vampira, a mocinha virginal que interessará também à vilã, o apresentador trapaceiro que aprenderá uma lição etc. E chega mesmo a ser mais interessante do que o filme de 2011, estrelado pelo Colin Farrell!

Como é uma produção feita diretamente para o home vídeo, a cinematografia, horror e violência gráfica supera o antecessor! Menor orçamento mais ousadia? Neste caso a classificação “R” não representa um risco.

A atriz principal é Jaime Murray, que conhecemos bem por incontáveis papeis de vilã (muitas vezes com toques de lesbianismo) em séries como Dexter, Ringer e Spartacus. Sua vampira cita e tem vários elementos da Condessa Elizabeth Bathory.

Personagem histórico feminino que equivale ao Vlad de Tepes, O Empalador, que inspirou a criação de Drácula de Bram Stoker. Ela também foi retratado em muitos outros filmes, sendo o principal A Condessa Drácula (Countess Dracula, 1971 de Peter Sasdy) da Hammer.

A Hora do Espanto 2 chega a mostrar uma espécie de curta animado recontando a trajetória macabra de Bathory, a nobre que descobriu rejuvenescer se banhando no sangue de donzelas. Sem medo de abraçar a fantasia e mistura-la com o sobrenatural.

Entre os bons momentos de uma trama que respeita os conceitos clássicos dos vampiros estão um acidente rodoviário, uma perseguição do ponto de vista de um morcego (com direito a radar natural no escuro e tudo) e um cataclísmico batismo de sangue. Literal!

O que mais estraga (e afastará muita gente) é justo seu título, que o força a participar de uma franquia, embora ele tenha força própria. Candidato a cult quando for exibido na TV.

Veja também:
Jaime Murray: Vocação pra ordinária
Velho e o novo A Hora do Espanto

Queda trágica! Mas com glamour

 Maravilhosa revista sobre a queda quase fatal de Ann-Margret em 1972. Tava de vestidão e cabelo esvoaçante rodando por aí na motoca e... CATAPLAFT!!! Ficou caída assim, fazendo caras e bocas...

Será que ela nunca mais voltará a dançar? Não conhecia a fofoqueira Rona Barrett, mas já achei fantástica só pela escolha dessa foto para a capa.

Gostei tanto que até duvidei que realmente tivesse ocorrido uma trágica queda na vida de Ann-Margret. Mas essa parte é verdade! Consta em qualquer biografia dela.

Mas não teve nada de glamour no acidente. A cantora e atriz despencou de um palco de mais de seis metros (!!!) durante um show numa cidade do estado de Nevada.

E a coisa foi realmente feia. Quebrou um braço, sofreu cinco fraturas de ossos faciais, incluindo o esmagamento de uma maçã do rosto e ainda teve concussão cerebral (um tipo de traumatismo craniano)!

 Após dez semanas ela estava de volta a um palco de Las Vegas. Provavelmente na base de muito analgésico, mas voltou pelo menos a cantar, o que muitos julgaram como milagre!

Não sei se pelo acidente, mas a carreira da Ann-Margret, que teria tido até um affair com Elvis, deu uma esfriada nos palcos. Também em 1972 havia sido indicada a Oscar de atriz coadjuvante por Ânsia de Amar (Carnal Knowledge, 1971 de Mike Nichols).

Pista para deixar de ser a gatinha teen que ~dançava, cantava e encantava~ e focar nos trabalhos como atriz. Conquistou a honraria de ser indicada novamente ao Oscar em 1976, mas na categoria de melhor atriz por seu papel em Tommy (de Ken Russell ).

Ainda foi indicada a 10 Golden Globes, dos quais ganhou a metade. Suas aparições mais recentes são em séries de TV como CSI: Investigação Criminal.

 Em 2010, a participação num episódio de Lei E Ordem (Law & Order) lhe rendeu o Emmy. Nada mal para quem achou 38 anos atrás que sua trajetória artística seria abreviada com o grave acidente.

A primeira imagem é um oferecimento Joseph Bremson, a segunda Fanpop

Veja também:
O Rei e ela

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Versões muito distintas da mesma serial killer


Esta é Martha Beck, enfermeira solitária que viu sua vida mudar ao fazer parte de um clube de correspondência amoroso no final da década de 40. Junto ao novo amor deu golpes em várias donas de casa igualmente solitárias, matou mais de 20, incluindo a filhinha de uma delas, de menos de dez anos de idade.

Esta é Martha Beck de Os Fugitivos (Lonely Hearts, 2006 de Todd Robinson), a mais recente versão cinematográfica da série de crimes que chocou a América. Por que raios acharam que Selma Hayek prestava ao papel?

A escalação de elenco mais furada de todos os tempos! A personagem baseada numa pessoa real simplesmente perde o sentido, ou motivação pra existir.

Dificilmente uma mulher belíssima e segura como a mexicana se sujeitaria a viver com um homem que ganha a vida se relacionando com outras mulheres. Daí ainda a se apaixonar e comungar de seus crimes é outro passo.

Esta é Martha Beck de Lua de Mel de Assassinos (The Honeymoon Killers, 1969 de Leonard Kastle). Shirley Stoler é ainda a melhor personificação da assassina, que assim como seu parceiro, acabou na cadeira elétrica, embora mal coubesse nela devido a seu peso, conforme a imprensa noticiou.

Irônica, repugnante, maléfica, antissocial e sem ninguém no mundo além do amor por correspondência. Tinha uma mãe idosa que abandonou num asilo ao ir morar com seu parceiro.

Repare que nas duas capturas tanto Hayek quanto Stoler estão na cama comendo guloseimas. Há pontos em comum entre os filmes, que não estão necessariamente ligados ao processo judicial e fique evidente que o de 2006 não se trata de um remake.

Apenas descrevem o mesmo caso policial, sendo que o anterior, embora não leve ao pé da letra a reconstituição de época e apele para encenações pouco realistas, parece muito mais fiel aos fatos. Ele é contado do ponto de vista da dupla dos criminosos, com momentos de extremo horror explícito.

O recente se emaranha numa investigação com tempo até pra draminhas pessoais dos policiais que só servem pra dissipar o impacto dos atos dos assassinos. Detetive John Travolta, um recém vivo às voltas com o filho adolescente que não chorou ao perder a mãe...

No final, nossa decepção com a absurda escalação de elenco se generaliza ao desperdiçarem um argumento tão interessante. Que já havia sido filmado de forma superior, com um orçamento muito menor.

A primeira imagem é um oferecimento Murderpedia.

Veja também:
A arte imita (mal) a vida
Reencarnando Lara
Ed Gein: Mais macabro que a ficção

Desenho dos anos 80 quase se tornou profecia catastrófica


 Thunderr, O Bárbaro, substituído por He-Man nas manhãs da Globo, logo foi esquecido, embora sua premissa seja uma das mais curiosas entre os desenhos 80’s. E por um triz se tonaria realidade.

Criado em 1980 pela Ruby Spears, empresa formada por dissidentes da Hanna-Barbera, tinha uma qualidade a mais na animação se comparamos ao que a tradicional empresa fez em séries como Super-Amigos. Ao todo existem 21 episódios, produzidos entre 1980-1982.

Como muito da cultura pop da época há respingos da Guerra Fria. Mais precisamente na visão de um mundo apocalíptica futurista, um mundo pós-hecatombe, medo crônico com que convivíamos.

Thunderr transitava por um globo devastado na companhia de Ariel e Ookla dois mil anos à frente, embora sua aparência fosse similar á de Conan (e a espada um arremedo de sabre de luz?).  Pode lembrar os cenários de O Planeta dos Macacos, mas também de tantas outros filmes, desenhos e quadrinhos posteriores, onde humanos (e criaturas) do amanhã convivem com escombros da atual civilização.

A desgraça planetária teria acontecido em 1994 quando um planeta se chocou com a lua, rachando em dois pedaços. Ou seja, 14 anos à frente de quando a série foi produzida e vinte atrás da gente agora, em 2014.

E as pessoas de duas décadas atrás lembraram-se da profecia de Thunderr ao ler nas notícias de que um cometa descoberto apenas em 1993 se chocaria com Júpiter. Em julho de 1994, o cometa Shoemaker-Levy 9 forneceu a cientistas do mundo todo a oportunidade de observar diretamente uma colisão extraterrestre entre dois corpos do Sistema Solar.

Aos nerds ele proporcionou um frio na espinha, aguardado a vinda dos tempos onde bruxos e mutantes transitariam após longo período de trevas. Mas nada demais aconteceu aqui na Terra (que saibamos...).

Aliás, no primeiro episódio do cartoon (Secret of the Black Pearl), os heróis vão ao que sobrou de Nova York. Lá imediatamente se deparam com as ruínas das Torres Gêmeas, que como sabemos, viraram cascalho em 2001.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Romance do ano: CRUZES!

Pelo que entendi na página disponível, a atriz Wilza Carla estava solteirinha e alardeou que achava o estilista Dener uma uva. Por sua vez o estilista declarou que nem ao menos a conhece essa mulher!

 “Estou louca por ele!”. Carla, na época famosa por desfiles de fantasias carnavalescas, dizia que seu amor pelo pioneiro da alta costura é antigo e que sempre teve muito ciúmes da atriz e modelo Maria Stella, ex-mulher e mãe dos filhos dele, que na ocasião havia falando mal de Dener na mídia.

Provável que esta revista Intervalo seja de 1970, quando o casamento do estilista com sua modelo de 16 anos tinha acabado, após todo o tititi que a união causou. Dener ainda se casaria mais uma vez, agora com uma cliente.

Ao que tudo indica, jamais correspondeu aos apelos de Wilza Carla, que prometeu até emagrecer. Cruzes!

Veja também:
R.I.P. Wilza Carla

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Marilyn em CinemaScope e blue jeans!


Mulher de jeans é uma coisa tão comum (se você não for da Congregação Cristã, of course) que é difícil imaginar quando isso já foi chamariz de bilheteria. Leia a crítica a O Rio das Almas Perdidas (River of No Return, 1954 de Otto Preminger) publica pela revista Cena Muda na época de seu lançamento:


 “Dos últimos CinemaScope este é o melhor, onde Marilyn Monroe está mais atriz e senhora de sua veia dramática. Tem bons momentos e passa uma quarta parte do filme em calça... "blue jeans" e, também, canta quatro belas canções ("River of no Returns", "Down in the Meadow", "One Silver Dollar" e "I'm Gonna File My Claim"), usadas com habilidade pelo cenarista. Marilyn canta com brejeirice, sensualidade e sentimento. Ela domina de ponta a ponta, fazendo de tal maneira realce de seus dons interpretativos, que Robert Mitchum e Rory Calboun, bem como Tommy Rettig, ficam em segundo plano. Otto preminger deu ritmo, embora um pouco lento, à história de Louis Lantz. Boa partitura de Lionel Newman em contrastes com as Ken Darby. O som dá uma nota empolgante aos momentos de emoção e está bem usado. Belíssimas as paisagens. Cotação: Bom.” 

1954, Marilyn famosa como nenhuma outra já foi em Hollywood. Metade do texto é sobre ela e sua brejeirice, sensualidade e sentimento!

E, como muitos outros textos da época, citam seus “dons
interpretativos”, como se eles não pudessem existir numa garota bonita.  Talento dramático em cheque pelos dotes físicos, como acontece até hoje.

 Por isso, espertamente ela viria a parar tudo e picar mula pra estudar no Actor Studios em Nova York.  Por conta própria!

Independente da vontade da Fox, que a queria enfiar em tudo quanto era comedinha que necessitasse de uma loura burra. Inclusive reclamava em alto e bom som desse “faroeste”, assinado pelo mestre Otto Preminger.

 E o crítico estava coberto de razão.Não é um filme ruim, mas é daqueles que já estariam esquecidos se não fosse pela presença de Marilyn Monroe.

Isca perfeita, inclusive de calça jeans e de penas abertas no destaque do poster! Em Cinemascope não devia haver apelo maior!

Veja também:
Onda de calor tropica. O umbigo de Marilyn
Quando estrelas sofrem. Filmando o Rio das Almas Perdidas
Os diretores favoritos de Marilyn

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O incrível núcleo travesti da novela

Anabela (Ney Latorraca)
Florisbela (Marco Nanini) e Clarabela (Antônio Pedro)
 Inspirada na peça Volpone de Ben Jonson, a novela Um Sonho A Mais foi ao ar em 1985. Quase 30 anos depois jamais foi igualada em termos de diversidade.

Escrita a princípio por Daniel Mas, foi substituído por Lauro Cesar Munis por problemas no Ibope, com argumento dos dois. Ney Latorraca interpretava um magnata que voltava ao Brasil disfarçado, a princípio, em três outros personagens, sendo um deles a secretária Anabela Freire.

Anabela era uma espécie de Tootsie (1982 de Sydney Pollack). A chance de Seu Neila virar uma mulher na TV sem deixar de ser homem.

Empolgado com o desempenho dos atores, Muniz inseriu outros dois travestis, criando o primeiro e único “Núcleo Travesti” da teledramaturgia brasileira.  Anabela recebeu a companhia de Florisbela (Marco Nanini) e Clarabela (Antônio Pedro). Ainda tinha uma das raras aparições de Patrício Bisso em novelas, como seu alter ego famoso, a psicóloga russa Olga Del Volga.

E se um travesti incomoda muita gente, três travestis incomodam muito mais! A moribunda censura chiou e o público que já torcia o nariz desde o começo, mais ainda. Lá se foram todas as bonitas tomarem chá de sumiço, mesmo fazendo parte da trama central.

Ainda assim, vale ressaltar que Anabela casou de véu e grinalda como manda o figurino! Dizem que com este casal aconteceu o primeiro beijo na boca entre dois homens na TV do Brasil.

Segundo o Memória Globo, foi um rápido "estalinho". O noivo desconhecia a verdadeira identidade da alma gêmea, mas ninguém é perfeito.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Vertigem, obsessão e as cartas

 Conhecido por homenagear, copiar, reler Hitchcock, Brian de Palma prestou um verdadeiro serviço a ele em Trágica Obsessão (Obsession, 1976). É seu filme cujo roteiro mais segue um do mestre, no caso um Corpo Que Cai (Vertigo, 1958).

Segue o argumento tão à risca que a gente desconfia logo no comecinho o que pode estar por trás do que os olhos veem. Menos num detalhe crucial: A cena da carta que já havia dado o que falar em 1958 acontece num momento diferente!

No livro que inspirou o filme as revelações só acontecem no final, mas Hitch acreditava que era preciso ser bem antes, até para mostrar os conflitos dentro da cabeça de Madeleine/Judy. Após uma exibição teste o diretor não gostou da antecipação e mandou corta-la.

Aí interferiu o produtor associado Herbert Coleman que acreditava ser uma falha remover a cena, mas, pra variar, Hitchcock se manteve irredutível. Só voltaria a existir no corte final com a interferência do chefão da Paramount Barney Balaban que exigiu o retorno da sequencia, que começa com um flashback e culmina na Kim Novak contando tudo numa carta que será logo depois descartada por ela.

Ou seja, só a audiência toma conhecimento do que realmente aconteceu, não o mocinho apaixonado. Resta saber se ele descobrirá tudo e como irá proceder, o que, num filme de Hitchcock, nãos era pouca coisa.

Quem estava certo? Na época o filme foi um fracasso de bilheteria, nãos e sabe o motivo, o diretor chegou a culpar o astro James Stewart por estar muito velho e se recusou a trabalhar com ele novamente, mas isso já é outro assunto. Com o tempo se tornou um dos maiores clássicos, uma gema rara da sétima arte.

Em 1976 De Palma retorna ao tema da mulher dada como morta até o protagonista reencontrar outra muito parecida, pra não dizer idêntica em Obsession. Antes de tudo, é um dos melhores trabalhos dele, lamentavelmente quase esquecido.

O problema maior é justamente ignorar a sacada da carta que dessa vez demora a acontecer! Passamos quase uma hora sem entender o que é aquela mulher, qual trama a envolve.

 É a filha que também morreu criança? Uma desconhecida? Uma armadilha? A alma penada da esposa? Nesse tempo todo chegamos a desencanar de qualquer coisa que é exibida na tela pra ficar juntando os pontinhos, dando certa dificuldade voltar à história.

Nos derradeiros minutos, quando finalmente a mocinha (Geneviève Bujold) resolve escrever sua missiva contando tudo, não causa mais o menor impacto! É como se após tantos anos tivéssemos a resposta quanto ao corte final de 1958.

Era mesmo errado deixar a plateia suspensa por tanto tempo, sem saber o que pensar sobre algo importante do roteiro. Hitchcock, embora tenha optado e teimado de forma contrária em Vertigo, sempre dizia que suspense não combina com negligência de informações.

Veja também:
Profunda vertigem: Symeoni VS. Bass
Um Corpo Que Cai contado por cores

De Palma está vivo. Viva De Palma!

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Santa confusão nas bancas e na TV, Batman!

A editora EBAL utilizou a foto do seriado de cinema dos anos 40 na capa da revistinha Batman, embora faça referência à série de TV!  Lewis Wilson e Douglas Croft ao invés de Adam West e Burt Ward (Batman e Robin consecutivamente)?
Estranho também que o programa só começou a ser produzido nos EUA em 1966, mas o vendedor no Mercado Livre e colecionadores dizem que é uma edição de 1965. Alguma emissora no Brasil exibiu a série do cinema antes da série de TV?

Sim! Provável que a capa em questão faça realmente referência à serie 40’s, que estaria sendo exibida na televisão com sucesso em 1965. Por mais estranho que isso pareça para alguns gringos que têm postado ela agora na internet como um erro.

Uma das primeiras versões live action e a mais famosa versão televisiva de Batman se distinguem, sobre tudo, porque uma é p&B e a outra em cores berrantes. Mas as transmissões de TV no Brasil só seriam em cores a partir dos anos 70, ou seja, não fazia muita diferença para o telespectador.

Para nós era perfeitamente aceitável assistir uma produção com quase 20 anos. Se levarmos em conta os aparelhos televisores e a qualidade da recepção da época, havia pouquíssima diferença técnica com algo feito no momento.

Além de só existir os quadrinhos como referência ao que Batman e Robin poderiam ser. Muito diferente das incontáveis adaptações do herói que temos hoje para comparar.

Antes, em 1953, a mesma capa já tinha ido parar nas bancas, só que anunciando ali em baixo "A volta de Batman e Robin no cinema", veja na imagem ao lado. A EBAL, uma das editoras a publicar o personagem no Brasil, dividiu os quadrinhos dele em séries.

Tanto a primeira (53 a 61), quanto a segunda série (61 a 69), trouxe nas capas essas fotos antigas alternadas com desenhos.  Praticamente, só as que possuíam as fotos colorizadas da década de 40 foram republicadas mais de dez anos depois, talvez para aproveitar a audiência da TV.

 Os desenhos da segunda série, por acaso, já eram muito parecidos aos que apareceriam na abertura do programa estrelado por Adam West e Burt Ward.

Filme de visual mais legal do momento é sueco

 A comédia de ação Kung Fury promete uma saladona com dinossauros, nazistas, vikings e, claro, kung fu! Transcorrido nos anos 80 e filmado como tal, é a produção de aparência mais fantástica desde Sin City (2005 de Robert Rodriguez).

Aliás, seguindo a cartilha de Rodriguez, o sueco David Sandberg é diretor mas também assina roteiro, produção, efeitos visuais e sabe-se lá mais o quê. Ah, sim! Ele é o protagonista, um policial de Miami que expulso da corporação sai a cata de Hitler, nem que precise viajar no tempo.

Caseiro e utilizando a tecnologia atual, conseguiu tudo o que o pessoal 80's queria ter feito. Embora eu acho que naquele tempo eles não se interessavam mais tanto assim por kung fu e 3º Reich.

Bacana que ele realmente cheira a uma daquelas velhas fitas feitas na Europa que tentavam seguir os clichés do cinema comercial norte-americano mas cheias de referências locais. Haviam quilos de produções assim nas locadoras de VHS.

Assista ao trailer no player abaixo ou clique aqui.


Para finalizar o longa ele está atrás de colaboradores. A meta da vaquinha até o próximo dia 25 era de U$ 200.000, mas já conseguiu mais de 500 mil via Kickstarter!

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A garota do sabão atrás da porta verde


 A notícia correu feito rastilho de pólvora: A pervertida estrela de Atrás da Porta Verde seria a mesma que estampava a embalagem de sabão em pó Ivory Snow, candidamente segurando um bebê!

Em 1972, no começo da era de ouro da indústria pornô, a atriz Marilyn Chambers tinha esse diferencial entre todas as colegas. Era só mais um rosto numa embalagem, até que o filme dirigido pelos irmãos Mitchell deu um nome a este rosto!

Chambers havia  posado para a foto em 1969, aos 18 anos, época em que tentava a sorte como modelo. Foi seu melhor trabalho na área, mas claro, tornar-se estrela de cinema parecia ser mais interessante, lembrando que naquele tempo transgressor, sexo explícito significava quase que apenas um gênero como qualquer outro.

Os próprios produtores ajudaram a alardear que a sua insaciável garota era a mesma pessoa que aparecia nas caixas deste bucólico e tradicional produto da Procter & Gamble (P&G) que a família americana consome por décadas. O meio publicitário ficou escandalizado com o desvirtuamento da imagem da pureza.

Ao invés de embarcar no hype, a P&G recolheu toda a linha Ivory Snow e suspendeu qualquer peça publicitária com seu rostro. Ainda exigiu que as agências investigassem a fundo a vida de qualquer outra modelo que fosse trabalhar para eles.

Ainda assim o filme foi um sucesso e a “coincidência” do trabalho anterior da moça foi motivo de muitas piadas em programas de TV. Escandaloso, com uma sequencia de ejaculação facial em câmera lenta que dura sete minutos, Atrás da Porta Verde tornou-se um clássico.

A partir dele Marilyn Chambers tornou-se uma estrela, assim como Linda Lovelace por Garganta Profunda (Deep Throat, 1972 de Gerard Damiano) e Georgina Spelvin por O Diabo na Carne de Miss Jones (The Devil in Miss Jones, 1973 de Gerard Damiano). Celebridades acima do gênero X-Rated, como só poderia ter existido nos anos 70.

A primeira imagem é um oferecimento this aint hell, a segunda clickautographs e a terceira UPI

Veja também:
R.I.P. Marilyn Chambers
Estranha na fúria do sexo

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

O Aniquilador: "Angela, não é você!"

 
O Aniquilador (The Annihilator, 1986 de Michael Chapman) é um telefilme norte-americano muito mais conhecido no Brasil do que em seu país. Ele estreou no Supercine da Globo e depois foi distribuído em VHS pela CIC Vídeo.

Na verdade trata-se de um piloto para uma série de ficção científica que nunca passou disso. Era comum produzirem primeiro um episódio longo, chamado de piloto.

Caso vingasse a Globo comprava a série toda, mas primeiro exibia o “Longa metragem que deu origem à série”, conforme anunciavam. Caso contrário ela exibia no Supercine, sábado depois da novela, como um filme qualquer.

O Aniquilador é repleto das falhinhas das produções televisas daquele tempo pelo orçamento apertado, mas tem momentos muito bons e uma trama intrigante. É um pouco variação de Vampiros de Almas (Invasion of the Body Snatchers, 1956 de Don Siegel) e Westworld - Onde Ninguém Tem Alma (1973 de Michael Crichton), mas claro, sem o brilhantismo destes.

Narrado a princípio em flashback, policiais perseguem um carinha, que acaba salvo por loira misteriosa. Ele é Richard Armour, editor de um jornal, acusado de matar a namorada, a também jornalista Angela Taylor.

Tudo começou quando a moça foi ao Havaí com passagens misteriosamente ofertadas pela empresa a érea. Já voltou de lá muito esquisitona, com cabelo new wave e certo sarcasmo nos lábios frios.

A maior bandeira é que Angela sempre se posicionou contra computadores (que pela época chamam de terminais), mas passa a usá-los com muita habilidade. Logo descobriremos que foi trocada por um ciborgue maligno quando o avião sobrevoou o Triangulo das Bermudas.

Ela e mais meia dúzia de “pessoas” que nosso herói terá que destruir enquanto foge da policia que o busca como se fosse um assassino. "Sou a caça e o caçador!" gaba-se Armour num momento Fábio Junior.

A sequencia mais memorável é quando o jornalista arranca o braço de uma garota ciborgue (por mais tecnológicos que sejam, são máquinas bem fraquinhas, viu?) e ela usa o membro pra bater nele! Surra de braço mole!

Não se sabe se foi a emissora brasileira que reeditou, ou se ele é assim mesmo, mas há uns sobressaltos na história. Falam muito, por exemplo, de um cachorro que morreu, mas ele nunca apareceu.

Em compensação, há praticamente um videoclip de longos minutos com reaproveitamento de imagens ao som de Ashes to Ashes do David Bowie. Música que toca umas quatros vezes durante todo o filme.

Bizarria maior é que nessa hora intercalam com imagens de arquivo de santos católicos e a estatueta de Pazuzu! A mesma que aparece em O Exorcista (The Exorcist, 1973 de William Friedkin ).


Seriam os demônios astronautas?

Há paranoia e uma conspiração envolvendo UFOs que não chegamos a saber direito do que se trata. Termina (e isso não é um spoiler!) com o jornalista caminhando de mochila nas costas, tal e qual o Hulk do seriado 70’s que perambulava pelos EUA a cada novo episódio.

Pausa para nossos comerciais

-É Trol, claro!

Hebe trolando as donas de casa desde 1900 e alguma coisinha. Devia ser lindo ela entrando numa cozinha, tirando os anéis de brilhante e atacando uma pia cheia de louça suja...

E um mistério solucionado: A jarra plástica de abacaxi, design tão célebre no Brasil, era da marca Trol! Com o desaparecimento da fábrica, ressurgiu em lojas populares sem marca alguma.

Provavelmente trata-se da versão “era espacial” da jarra de abacaxi em porcelana. O anúncio é de 1968, época em que o uso do plástico se popularizou nas cozinhas em substituição a lata entre outros materiais menos duráveis.

Ela voltou a ser objeto de desejo de todos, não apenas de adoradores do kitsh, após aparecer na série da TV Globo A Grande Família. Se antes podia ser encontrada em qualquer lojinha de 1,99, agora é vendida por até 51 pratas no Mercado Livre.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Tubarão de um jeito nunca vista!










Após o sucesso em seu lançamento em 1975, Tubarão (Jaws de Steven Spielberg) gerou muitos subprodutos. Entre eles uma versão do filme em apenas um rolo de Super 8 para quem quisesse rever em casa.

Essa cópia compacta, resgatada por um fã, provavelmente foi montada a partir do material bruto, antes da pós-produção. Isso pode explicar porque nela, curiosamente o primeiro ataque do tubarão acontece de dia, não de noite. Confira no player abaixo ou clicando aqui.

Geralmente sequencias noturnas são filmadas de dia e só depois aplicam um filtro que escurece a imagem. Assim é mais barato e tecnicamente mais fácil captar as imagens.

O raro vídeo em Super 8 não tem áudio, o que também nos faz sentir falta da excelente trilha sonora de John Williams. Havia uma variedade de projetores, os mais populares eram mudos.

Entenda melhor como era o Super 8, essa forma caseira de se ver filmes antes do VHS, DVD e Blu-Ray clicando aquiVale ver o vídeo todo.

Para quem tinha dúvidas de como um filme inteiro cabia num rolinho daqueles, aí está!  Não cabia.


124 minutos transformados em 15! Era um resumão mesmo.

Veja também:
Tubarão, o videogame!
Super 8 e a volta do cinema mudo
Spielberg liderou reclamações do SAC
Related Posts with Thumbnails