sábado, 18 de janeiro de 2014

Vertigem, obsessão e as cartas

 Conhecido por homenagear, copiar, reler Hitchcock, Brian de Palma prestou um verdadeiro serviço a ele em Trágica Obsessão (Obsession, 1976). É seu filme cujo roteiro mais segue um do mestre, no caso um Corpo Que Cai (Vertigo, 1958).

Segue o argumento tão à risca que a gente desconfia logo no comecinho o que pode estar por trás do que os olhos veem. Menos num detalhe crucial: A cena da carta que já havia dado o que falar em 1958 acontece num momento diferente!

No livro que inspirou o filme as revelações só acontecem no final, mas Hitch acreditava que era preciso ser bem antes, até para mostrar os conflitos dentro da cabeça de Madeleine/Judy. Após uma exibição teste o diretor não gostou da antecipação e mandou corta-la.

Aí interferiu o produtor associado Herbert Coleman que acreditava ser uma falha remover a cena, mas, pra variar, Hitchcock se manteve irredutível. Só voltaria a existir no corte final com a interferência do chefão da Paramount Barney Balaban que exigiu o retorno da sequencia, que começa com um flashback e culmina na Kim Novak contando tudo numa carta que será logo depois descartada por ela.

Ou seja, só a audiência toma conhecimento do que realmente aconteceu, não o mocinho apaixonado. Resta saber se ele descobrirá tudo e como irá proceder, o que, num filme de Hitchcock, nãos era pouca coisa.

Quem estava certo? Na época o filme foi um fracasso de bilheteria, nãos e sabe o motivo, o diretor chegou a culpar o astro James Stewart por estar muito velho e se recusou a trabalhar com ele novamente, mas isso já é outro assunto. Com o tempo se tornou um dos maiores clássicos, uma gema rara da sétima arte.

Em 1976 De Palma retorna ao tema da mulher dada como morta até o protagonista reencontrar outra muito parecida, pra não dizer idêntica em Obsession. Antes de tudo, é um dos melhores trabalhos dele, lamentavelmente quase esquecido.

O problema maior é justamente ignorar a sacada da carta que dessa vez demora a acontecer! Passamos quase uma hora sem entender o que é aquela mulher, qual trama a envolve.

 É a filha que também morreu criança? Uma desconhecida? Uma armadilha? A alma penada da esposa? Nesse tempo todo chegamos a desencanar de qualquer coisa que é exibida na tela pra ficar juntando os pontinhos, dando certa dificuldade voltar à história.

Nos derradeiros minutos, quando finalmente a mocinha (Geneviève Bujold) resolve escrever sua missiva contando tudo, não causa mais o menor impacto! É como se após tantos anos tivéssemos a resposta quanto ao corte final de 1958.

Era mesmo errado deixar a plateia suspensa por tanto tempo, sem saber o que pensar sobre algo importante do roteiro. Hitchcock, embora tenha optado e teimado de forma contrária em Vertigo, sempre dizia que suspense não combina com negligência de informações.

Veja também:
Profunda vertigem: Symeoni VS. Bass
Um Corpo Que Cai contado por cores

De Palma está vivo. Viva De Palma!

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