terça-feira, 1 de outubro de 2013

Cidadezinha contra deus pagão (ou quase)

Imagem masculina do deus babilônico Ishtar ornamentando um subúrbio de New Jersey. Mas já a vimos, numa situação bem mais glamorosa.
foto promocional de O Filho Pródigo, 1955
Na verdade, esta estátua não se trata exatamente de objeto de culto religioso. É um adereço cênico, confeccionado para um filme da Lana Turner.

Mais precisamente, O Filho Pródigo (The Prodigal, 1955 de Richard Thorpe ). Inspirado na conhecida parábola bíblica, a produção aproveitava a onda de épicos em Cinemascope, sendo o primeiro da atriz neste formato.

A estátua em Atlântica, Continente Perdido, 1961
Aparecem duas imagens iguais. Uma estatueta de menos de um metro e essa gigantesca que fica no topo de uma escadaria de onde são feitos sacrifícios humanos em berrante Technicolor.

Um fiasco de bilheteria ao nível da opulência típica hollywoodiana da época. Como era de costume, o estúdio MGM reaproveitou objetos de cena, figurinos e mais o que podia para balancear os custos.

Assim, o “deus da fertilidade, amor, guerra e sexo” pôde ser visto também em filmes como a aventura juvenil Atlântica, Continente Perdido (Atlantis, the Lost Continent, 1961 de George Pal). Nesse, no lugar da cabeça da serpente aparece um espelho, o que talvez explique como ela se encontra hoje.

Capa de disco de 1988
De lá pra cá, ainda surgiu na capa de um disco de punk 80’s! Pelo que se vê na foto, (já estava sem a cabeça da serpente) está decorando a fachada de uma agência de turismo (que prometia viagens tranquilas!), o que condiz com a história de como ela chegou até a pequena cidade de Lumberton em Nova Jersey.

Segundo notícias, um lenhador chamado Denney Van Istendal a comprou da tal agência em 2011. Pagou cerca de dois mil dólares, mais três mil de transporte e levou a escultura de mais de três metros pra sua casa.

Não há informações de que se trate de um fã de Lana Turner, cinéfilo radical ou apenas uma pessoa de gostos exóticos. Não demorou muito para a vizinhança começar a ficar agitada ao dividir espaço com tal figura.

Mesmo dentro do quintal, a cabeça ostentando os enormes chifres é vista ao longe. O que poderia virar uma excêntrica atração turística tornou-se quase caso de polícia, com a prefeitura tendo que intervir.

Com os habitantes se referindo ao objeto cênico como "desprezível", "demoníaco", "uma monstruosidade" e "obsceno", teve ainda quem denunciasse porque assustou os seus cavalos que pastavam perto. Por ordens municipais, o dono ficou proibido de expor qualquer parte que seja da imagem, mesmo ela estando em seu quintal.

Van Istendal prometeu recorrer, mas parece que perdeu, ou desistiu. O grande Isthar foi levado para a porta de um bar na Filadélfia, e lá deve repousar por mais algumas décadas.

A ironia máxima é que ela foi fabricada para decorar um filme que propagava a fé cristã, não pra servir de adoração ao que quer que seja. Fica aquela vela sensação de que as pessoas se apegam ao óbvio, ao visível (uma figura de aparência demoníaca) do que ao real (um mero resto de cenário de uma produção hollywoodiana).

A primeira imagem é um oferecimento Colonel Tusker's Blog, a segunda Vintage Legal, a quarta Rare Punk e a quinta Volusia Riders.

[Ouvindo: Menino do Rio – Baby Consuelo]

2 comentários:

Alexandre ☠"O Rock"☠ disse...

É desprezível a capacidade que as pessoas tem de serem "BITOLADAS" a religiões e verem em tudo algo que vai contra tais..... Vão a M##$%@ !!!!

As pessoas estão deixando de apreciar uma obra de arte que deveria era ser restaurada ao seu formato inicial por mero absolutismo religioso !

RIDÍCULO !!!!

Miguel Andrade disse...

Alexandre, e parece que as coisas só "melhoram".

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