segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

“O que eu censuro”

Sintoma da abertura política na década de 80, programa de debate proliferaram na TV do Brasil. Todo mundo, enfim, com vontade falar sobre tudo.Como era necessário ter um contraponto, velhas figurinhas dos tempos de chumbo constantemente acabavam sendo chamadas.

A cara do Coronel Erasmo Dias, por exemplo, era um tipo de Cuca para crianças que assistiam TV até mais tarde naquela década.

 Até então, Lhufas do passado do sujeito, mas sabia-se que dava medo. Essa opiniãozona dele sobre cinema no topo deste post foi publicada na revista Set em 1990.
 
A mim, agora homem adulto, tentando escapar da burrice inerente ao ser humano, me enoja! Por que cargas d’água esse senhor achava que pode decidir pelo outros?

 Militares sobre tudo, num português bem claro, eram criaturas que se achavam, quase messiânicos. Coroné Dias sabe mais de cinema do que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que premiou Rocky, Um Lutador (1976 de John G. Avildsen), com 3 das suas estatuetas douradinhas.

 Aliás, no mundo linear e maniqueísta em que essa gente (infelizmente no presente) vive, só é possível um tipo de mensagem. E aparecendo na TV e em mídias em geral o tempo todo, esse senhor ainda conseguiu se candidatar (e vencer) a cargos públicos.

Não só ele, mas todos os coleguinhas dos anos da ditadura militar. No Brasil nada aconteceu a eles, o que aos olhos do rebotalho, simplista por natureza que se encanta com qualquer bravata, acaba por legitimar as trevas do período.

Coroné Dias se foi em 2010! Antes, em 2004 tentou pleitear uma boquinha do governo, de olho nas indenizações que vítimas políticas do Governo Militar receberam.

Ficou chupando o dedo, mas declarou à Folha: "Sou estigmatizado por ter defendido com unhas e dentes o Brasil contra o regime comunista putrefato. Quero receber reparação.Tenho mais direito a ela do que aqueles terroristas que fizeram guerrilha e agora posam de heróis, ditando as regras neste país". Eleito deputado várias vezes dá pra entender essa aposta na bandalheira nacional.

E embora pessoinhas assim já tenham ido com o diabo que lhes carregue, bom ficar alerta. Além dos que ainda estão por aí usufruindo de vida pública, volta e meia nascem outros, dispostos a impor seus caprichos.

Como dizia Nelson Rodrigues, boçais sempre vencem. Coloque uma toupeira falando qualquer asneira em cima de um caixote numa praça e poucos minutos depois, dezenas de outras toupeiras estão dando ouvidos.

Está aí essa saraivada de leis estapafúrdias que não nos deixam mentir. E com aprovação maciça do eleitorado...

[Ouvindo: Tecno Crash – Kraftwerk]

17 comentários:

Refer disse...

Via o Cel. Erasmo quase todo dia flanando sempre sozinho na Brig. Luis Antonio, Alameda Jaú e adjacências. Muito bem disposto, muito bem fisicamente. Fiquei surpreso quando soube que morreu. O que será que o Cel Erasmo tinha por aqui? Negócios, amante?

Erasmo Dias nunca teve nada a ver com o depto. de censura, até onde sei; nunca teve poder de veto nenhum. E a Set vai perguntar pra ele por quê?

Miguel Andrade disse...

Refer, de forma alguma disse no post que este senhor tinha poder de veto sobre qualquer coisa que seja. Apenas comento sobre a postura raivosa que esse tipo de gente tem perante os outros mortais.

Conforme está no texto, isso é da década de 90, fase em que ele se tornou célebre dando opiniões sobre qualquer coisa.

Refer disse...

Vc não disse, mas do jeito como está escrito, alguém pode achar que sim, que Erasmo Dias podia mandar e desmandar na Censura.

O cerne da questão é ou devia ser: por que a Set vai perguntar uma coisa assim para o Erasmo Dias? A resposta podia ser outra? É claro que não!

É como perguntar para o Luiz Mott se ele "aprova" o 'kit gay' que Fernando Haddad está lou-qui-nho para distribuir nas escolas.

Miguel Andrade disse...

Refer, mas ele sempre era chamado pra irritar! Por isso perguntaram pra ele o que ele censuraria.

Usei isso para discutir sobre um tema.

Refer disse...

Então, no caso o problema não era o Cel. Erasmo, mas a Set e a imprensa que o chamavam.

Se vc oferece um cigarro para o Drauzio Varela vc espera que ele tenha um (inevitável) chilique. Ou não? O problema no caso é o Drauzio ou é vc que ofereceu o cigarro, sabendo que ele é chiliquento?

Miguel Andrade disse...

Refer, o caso é de tudo! Dessa gente continuar apitando alguma coisa, serem ouvidos, continuarem como se nada tivesse acontecido, etc.

Leticia disse...

O Cel. Erasmo Dias ficou marcado com símbolo da ditadura em SP por causa do episódio da prisão dos estudantes na PUC. A imagem negativa e caricata que se tem dele tem sido enfatizada e repisada por um tipo de discurso que se origina naqueles tempos e que culmina com a ascensão democrática de um partido de esquerda à Presidência.

Na verdade, todo bolsão de pensamento - à direita, à esquerda, ao centro - tem suas figuras caricatas. E todos, absolutamente TODOS com alto grau de autoritarismo, que só mostra a cara quando está no poder.

Todo o coitadismo da esquerda brasileira ao longo das últimas décadas foi se transformando: de tomada de poder para implantar o comunismo nos anos 60 (hoje reescrito como "luta pela democracia" - mentira. Era para o comunismo mesmo, coisa super "do bem" naqueles tempos), passou a abrandar o discurso quando o muro caiu, voltando-se para causas sociais, e tal. E agora, depois de 9 anos de poder, vê-se que não encanou um esgoto sequer, não cuidou com inteligência de educação, saúde, empreendedorismo, etc.

E, curiosamente, veio com tentativas autoritárias muito mais perigosas (porque subliminares e paulatinas) do que o style Erasmo Dias: tentativa de controle da imprensa, da propaganda, acirramento racial, currículo escolar, etc.

Assim como não se pode taxar todo esquerdista de ladrão (parece ser essa a tendência hoje diante dos fatos do governo), também é temerário botar todos os militares no mesmo balaio da ditadura de 64. Lá foi um grupo que tomou o poder, e só isso. Muitos militares não concordaram, inclusive com o arrocho do AI-5.

Entonces, muita calma nessa hora. Erasmo Dias era o vizinho chato, assim como são chatos os crentes, os vegans, os ambientalistas, os ciclistas engajados e os motoristas antimulta total.

Todos, absolutamente todos, querem mandar no mundo, travestidos por enquanto de seres que só querem o bem. Quando surgir a oportunidade de chegar ao poder...

Miguel Andrade disse...

Letícia, discordo! Até pq, não dá pra comparar o que se tem hoje com o que se queria naquele tempo.

Por mais que sejam aquelas pessoas que hoje estão no poder, os momentos são distintos.

Sem falar na própria situação econômica do país que realmente tem muito o que mudar, mas já está anos luz do que era.

A lavagem cerebral na massa foi tanta que os militares não só se tornaram políticos eleitos, mas respingos (respingos acho uma palavra até branda) da visão tacanha deles ainda está firme e forte na sociedade.

Pode ser realmente que existam alguns que não compartilhassem do que foi feito a partir do AI-5, mas estou me referindo obviamente aos que estiveram no poder.

Muito comum ler por aí a ralé suspirando pela volta deles. Amigos, na volta deles nós não estaríamos aqui refletindo sobre eles.

Esse período precisava ser desmistificado. Brasil devia sim julgar todos esses senhores como fizeram outros países vizinhos.

Miguel Andrade disse...

PS: Galera do Twitter divulgando, estarrecidos, a seguinte imagem que ilustra bem TUDO:
http://www.facebook.com/photo.php?fbid=10150412700825378&set=a.10150304041055378.340845.503635377&type=1&theater

Não me espanto, não me espanto...

Leticia disse...

Ah, entendi sua posição, Miguel. Mas são grupos um tanto distintos. Na verdade, hoje tudo se misturou um pouco. Até os conceitos de direita esquerda djá eram por causa disso. Pois não tem crente conservador que vota na esquerda? E a nossa esquerda, por acaso, não acabou cedendo pros valores desse povo?

Vide o episódio da opinião sobre o aborto na última campanha, em quem Dilma teve de recuar. E Serra também.

Pagar pau pra gente obscura só por causa de votos é um caminho perigoso.

Pra falar a verdade, o mundo inteiro obscureceu. Medo!

Mas insisto: o caso específico do golpe de 64 não deve ser visto hoje como uma punhalada conservadora sobre uma possibilidade libertária que acabu não acontecendo. Em termos de vangurda de pensamento, o comunismo é péssimo. Por baixo, por baixo, só pela questão da liberdade de imprensa. Taí os chorosos de Kim Jong Il que não me deixam mentir. (Não sei como escreve o nome desse senhor e me reservo o direito de não saber. E Dilma, eu chamo de presidente, com "e". Por enquanto não há ninguém para me pressionar o contrário).

Miguel Andrade disse...

Letícia, não há mais esquerda ou direita. Por isso mesmo não vejo comparação entre os governantes de hoje e os guerrilheiros de ontem.

Concordo com o lance de que a ideia comunista na prática é uma merda. Mas a postura de quem se rebelou aos que calavam, delapidavam e sapateavam em cima do país não devia ser esquecida.

Até para que não surjam serem podres como os que criaram este movimento da foto que link no comentário anterior. Criaturinhas que se acham acima dos outros.

Refer disse...

Não há + esquerda e direita porque tudo virou esquerda governista; os movimentos sociais, as ONGs, até a bandidagem do PCC estão todos dentro da esquerda e a favor do governo.

Maluquice tua querer julgar os milicos de ontem e "esquecer" os crimes dos guerrilheiros. Isso é jogar a favor desse estado leninista/stalinista instalado no País. Por que não investigar a Dilma, cuja vida é + obscura que a do Obama?

E é errado comparar os militares brasileiros nacionalistas do golpe de 64 com os criminosos de farda que deram golpes na Argentina e no Uruguai, por exemplo. Vc coloca todos no mesmo balaio.

Fossem os militares brasileiros iguais aos militares argentinos golpistas não sobraria uma dilma, um josé dirceu sequer pra contar a história.

Miguel Andrade disse...

Refer, e aquela fumacinha na memória... A mesma que fez órgão de imprensa declarar que tivemos uma "ditadura branda"...

Vamos brincar de que o país não está longe, muito longe do que era naquele tempo também...

Crimes políticos são crimes políticos. Pena que aqui tudo fique embaixo do tapete.

Leticia disse...

Miguel, mas é justo esse o ponto: esquerda e direita não existem mais. Só falta avisar o povo da esquerda.

E, como disse o Refer, ninguém foi bonzinho no tempo da ditadura. Nem os guerrilheiros. Lembrando, eles não queriam a volta da demcracia, eles queriam um outro regime. E foram bem truculentos também.

Se hoje se clama (com justiça) pelo resgate da história e dos corpos de caras mortos pelo regime militar, é plausível: militares sabem exatamente onde e quando o fizeram. Está tudo documentado. Já não se pode dizer o mesmo dos mortos pelos guerrilheiros.

Conflitos de guerra não são bons pra ninguém. Reescrever a história não lava reputações.

E hoje, apenas mudam as criaturas. O procedimeto de se achar acima dos outros permanece, porque isso é simplesmente humano e universal.

Veja o regime terrível de Kadhafi e o que fizeram com ele capturado. Exagerando, a humanidade não passa disso.

Miguel Andrade disse...

Letícia, sabe qual é o problema da esquerda de antes e esse refugo de pretensos esquerdistas de hoje? Antes de qualquer visão política existe a tietagem.

Certa cegueira de fã que me causa medo! Não importa o que seus ídolos façam, estão certos, são iluminados.

Não vejo muita diferença entre uma petista até o osso (que ainda sobrevivem aos montes) de uma macaca de auditório do Roberto.

Leticia disse...

Sim. A esquerda sempre foi assim. Vive de ídolos, de crises e de direcionamento ideológicos através de censura, alienação e muita, muita mentira.

Não digo que a direita não faça isso, mas a esquerda faz mais, pegando no gancho emocional de uma pretensa igualdade entre todos.

Miguel Andrade disse...

Letícia, e incrível como depois de tudo ainda há quem tenha fé, simplifique tanto.

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