sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Cine quinqui: A vida como ela é

Curioso gênero cinematográfico, cine quinqui não atravessou as fronteiras espanholas. Também, como a maioria dos fenômenos populares de discurso direto, o futuro lhes reserva o obscurantismo.

Pertencente ao final da década de 70 e inicio da 80, os filmes que receberam o rótulo quinqui tratavam sobre assuntos urgentes, que estavam nas páginas dos jornais. Nas páginas policias dos jornais!

Não raro, os delinquentes ganhavam notoriedade e acabavam por estrelar na tela grande histórias que narravam suas próprias desventuras, ou de algum outro que haviam convivido. Ganhavam um upgrade, indo parar nas páginas de cultura dos jornais!

Por mais inoportuno que pareça, se “justifica” socialmente pelo momento inquietante que a Espanha vivia. No conturbado período político transitório em que passava, o país se viu afrontado por notícias violentas que iam além dos ataques do ETA.

Nos roteiros de cine quinqui decorriam questões como drogas, marginalidade e abusos, quase sempre como decorrência da miséria. Tudo mostrado em dramático tom de denúncia, com o infrator geralmente tendo que apelar ao crime para sustentar sua família.

A estética mundo cão contrasta com qualquer coisa que se tenha em mente como “cinema espanhol”. Sem subterfúgios, a intenção era ser o mais realista possível, com a Madri “evoluída” ao fundo emoldurada por um subúrbio em frangalhos.

Entre os diretores que se tornaram conhecidos está Eloy de la Igreja, autor de obras barra pesada e naturalistas como El Sacerdote (1978) e Colegas (1982). Esse último sobre um grupo de garotos que tenta sobreviver praticando pequenos furtos, frequentando saunas gays e traficando recém-nascidos.

De La Iglesia, falecido em 2006, dizia que seu vicio pelas drogas é pouca coisa comparado ao seu vicio pelo cinema. O que dá noção da mistura entre realidade e ficção que rondava o cine quinqui.

[Ouvindo: Missing Helen – Rolfe Kent]

7 comentários:

qualquergordotemblog disse...

Não tentaram fazer algo parecido no Brasil com:"Lucio Flávio - O Passageiro da Agonia"?

Miguel Andrade disse...

Qualquergordo, sim, parecido. Mas o nosso não se tornou um "movimento".

Leticia disse...

Qualquergordotemblog, PUTZ!!!!! Pensei o mesmo! Como não lembrar de "O Caso Claudia", que foi esquecido antes até mesmo de o cara bater as botas na Suíça?

Concordo, Miguel, não virou movimento, com nome e tudo, mas até hoje é tendência no BR. Estão aí Carandiru e Cidade de Deus que não me deixam mentir.

Miguel Andrade disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Miguel Andrade disse...

Letícia, mas os criminosos não têm (na maioria das vezes) participação alguma nos projetos.

Nos Espanhóis havia a intenção quase documental.

Um que eu pensei como cine quinqui é aquele Quem Matou Pixote?... Um dos filmes que mais me deixou de bode ao ponto de NUNCA mais querer assisti-lo de novo.

Antes do Fernando morrer, poderiam ter feito um filme contando as agruras reais dele. Aí quem sabe o finale seria diferente...

Leticia disse...

Ah, mas aí você entra em considerações estamentais. Na Espanha é provável que o conceito de denúncia social seja verdadeiro. Aqui, não. Onde já se viu cineasta brasileiro se juntar à ralé? No máximo aluga um smoking pro moleque no dia da estreia e se faz de amiguinho pras entrevisas e fotos, e olhe lá.

Miguel Andrade disse...

Letícia, Pixote que o diga....

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