terça-feira, 11 de outubro de 2011

Olga Del Volga escolhe o filme preferido

Aos 73 anos a psicóloga russa Olga Del Volga foi convidada pela revista Set a escrever sobre sua película favorita. O ano era 1990, pleno boom do VHS, quando todo mundo foi rever , conhecer e cultuar grandes clássicos.

A seção Filmoteca mensalmente trazia um convidado ilustre discorrendo sobre o que lhe foi memorável no cinema. Del Voga foi dos poucos a ter o texto dividido em duas edições.

Na primeira parte, que você lê a seguir (publicada em julho, ed. 48), ela aproveita pra falar sobre a Sétima Arte e um pouquinho de sua altiva história pessoal. Como a icônica senhora, famosa sobre tudo por seus conselhos sentimentais, anda meio sumida, é a oportunidade de relembrá-la.

“Embora eu não tenha nascido à sombra da esfinge feito a Theda Bara, o cinema sempre jogou um papel muito importante na minha vida. Não por ter ficado assistindo sentadinha no escuro feito muito cinéfilo, mas foram as minhas pontinhas nos épicos russos da época que ajudaram pagar a minha conta na "Quitanda do Povo" naqueles anos de vacas magras. Quem prestar muita atenção em, por exemplo, Alexander Nevsky, pode me ver direitinho na cena da procissão do deserto, segurando uma vela e trajando um modelinho folclórico medonho, que a figurinista não era lá aquelas coisas.

Desafortunadamente, todos os meus veículos como estrelinha exótica da UFA foram destruídos num incêndio fatal após a guerra. E com a chegada do neo-realismo e a minha conseqüente recusa em aparecer nas telas despenteada e com a alça da combinação aparecendo, lá se foi a minha chance de ficar na história como a única atriz a ter conseguido agradar em quase todos os gêneros.

É por isso que escolher apenas um filme favorito dentre todos os que eu já fiz fica difícil. Ainda mais quando me lembro que o cachê em todos foi sempre miserável. E lista de "filmes favoritos", todo mundo já sabe até de cor. É Sete Samurais para cá e Cidadão Kane para lá, que não acaba mais.

Não que eu tenha nada contra esses dois, mas samurai, vocês sabem, só mesmo juntando sete para dar alguma coisa de passável, e olhe lá. E do Cidadão Kane só me lembro do figurino de Susan Alexander ria ópera, fazendo "Salammbo", cheio de plumas e cascatas de pérolas, uma beleza.

Potemkim, Terra em Transe, Acossado, não passam de um monte de baboseiras para intelectual ver. Os chamados "filmes-cabeça" são, geralmente, filmes sem pé nem cabeça, e como as pessoas não entenderam nada direito ficam fazendo os comentários mais absurdos, apenas para disfarçar. De O Ano Passado em Mariembad, tenho certeza, todo mundo se lembra do jogo do palito; agora, me explique a história direito...

Estão vendo? Eu posso ser russa, mas sou honesta. Prefiro mil vezes ver Scarlett O'Hara fazendo vestido de cortina velha do que escutar Jean-Pierre Léaud lendo trechos do livro vermelho de Mao Tsé Tung.

Mas sendo forçada a escolher apenas um, sinto muito desapontar a minha enorme legião de fãs, que sempre espera uma palavra de luz desta que aqui lhes fala, mas a escolha é singela. O meu filme favorito é A Noviça Rebelde, que já era cult antes de muito vampiro do Rocky Horror Show ter nascido. Um filme alegre, cheio de mensagens de esperança, de denúncias à crueldade do regime nazista, onde cada cena é um canto à família, nem que seja a dos outros, que Maria é órfã."

[Ouvindo: Escandalosa – Aracy de Almeida]

21 comentários:

Danilo Zanella disse...

Acho que me apaixonei por essa senhora!

Miguel Andrade disse...

Danilo, não é do seu tempo né? haha!

Você já assistiu Onda Nova? Ela faz a mãe da Cristina Mutarelli.

Também está bem espirituosa num filme com a Regina Duarte que agora não me vem o título. Só lembro que envolve michês, donas de casa entediadas e o Paulo Castelli.

DAVI VALLERIO disse...

tem como nao amar Olga del Volga? se nao me engano a Olga,ou Patricio Bisso,era ilustrador da coluna da Joyce nos anos 80 e 90 na Folha e tambem teve uma participacao naquela novela do Volpone,Um Sonho a Mais.A tal novela censurada porque o Ney Latorraca fazia entre outros personagens,uma tipo a Tootsie

Miguel Andrade disse...

Davi, era sim ilustrador! Amava os desenhos dele na Joyce!

E eu não lembro dele nessa novela!

Bardot disse...

Morri c/ o Danilo apaixonado pelo Patrício! rs
Mas confesso que tb nunca vi Onda Nova e esse filme c/ a Regina Duarte. Vi no imdb que ele fez "O Beijo da Mulher Aranha" mas nem lembrava!

Miguel Andrade disse...

Bardot, de que é o Bisso ele não sabe! Haha

Danilo Zanella disse...

Pois é, só fui pesquisar no google depois de comentar... SE APROVEITAM DA MINHA INOCÊNCIA!

Refer disse...

O Patricio pegou carona no 'O Beijo da Mulher Aranha' e foi para Los Angeles, com Sonia Braga.

Uma tarde, ele nos telefonou de lá e disse; "Daqui (da janela do quarto de hotel onde estava) dá pra ver metade da 'letras' de HOLLYWOOD!"

Miguel Andrade disse...

Danilo, basta ser russa que o senhor se emociona!

Refer, tomara que tenham sido "Holly".

Leticia disse...

Pombas! E au esperando o Refer contar com detalhes seu encontro com Olga del Volga... Decepcionei!

Telefone não vale.

Daniel Tavernaro disse...

Rocky Horror me conquistou justamente por ser trash e totalmente sem sentido. Mas a "sra." o chamou de cult; então, deixa baixo....rs.

A Noviça Rebelde é muita "alegria de renovação" pra minha cabeça; é quase a Mary Poppins - ou sua continuação, rs. Poderiam se chamar Poliana, ambas.

Miguel Andrade disse...

Letícia, acho que ele já contou aqui ó:
http://cidadaoquem.blogspot.com/2010/02/um-beijinho-do.html

Falou até da bofetada!

Daniel, Rock Horror foi um dos primeiros a serem associados com a palavra "Cult". Foi por isso.

Morro de preguiça da Noviça Rebelde! MORRO!

Diogo disse...

Eu já vi todos esses "intelectual ver" hahahaha e são ótimos!

Miguel Andrade disse...

Diogo, também acho!

Bardot disse...

Adoro Godard, Bergman, David Lynch... Mais fácil eu detestar Casablanca, A Doce Vida, Cleopatra e alguns outros do gênero como A Noviça Rebelde q eu até gostei pq achei alegre. Quase um prozac num momento deprê, rs. Mas tem q ter paciência mesmo p/ ver até o fim...

BB disse...

alguns filmes d fácil entendimento como E Deus Criou a Mulher é o tipo que eu acho mil vezes mais chato que algum filme intelectual...

Miguel Andrade disse...

Bardot, mas o texto dela fala a respeito daquele momento. Por isso disse quando foi publicado.

Houve um boom de cinéfilos caretas coisa e tal no começo dos 90 por causa do VHS. Deve ter parecido algo super "Uau" elogiar algo simples como A Noviça Rebelde, que passava sempre na TV.

Leticia disse...

Ah, esse eu não tinha visto, oras!

Miguel Andrade disse...

Letícia, suspeitei! rs

Anônimo disse...

Miguel, e esse tag "in memoriam"? Olha, até onde sei "la Del Volga" estava residindo em Buenos Aires... Retirada da carreira, obviamente, por problemas "éticos"... algo com atividades noturnas na praça roosevelt pelos idos dos 90's... Uma lástima que ele nunca mais voltou ao Brasil... Talvez nem saiba que tem uma quantidade de fãs saudosos!

Miguel Andrade disse...

Anônimo, não confunda personagem e autor! "In memoriam" para personagens que deixaram no mínimo saudades! :D

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