segunda-feira, 15 de agosto de 2011

10 anos de Os Maias

Com força de Grand Guignol e a decadência do antigo império português como pano de fundo, a história se concentra em duas gerações da família Maia. Duas gerações marcadas por escaldante luxúria, incesto e eminente tragédia.

Não há pontos frios na trama. A passionalidade rege à luz de velas a vida dos personagens como uma macabra ópera, onde respingos de sangue fazem as vezes das lágrimas de um morto.

Faz uma década que a Globo chegou ao seu ápice de qualidade produtiva com Os Maias. A adaptação do lusitano Eça de Queiroz levou a TV do Brasil a outro patamar inigualável.

Pra gente ter um comparativo, as emissoras dos EUA só saberiam o que é algo parecido este ano, com Mildred Pierce. Co-produzida pela Sic ao custo de mais de 9 milhões, o espetáculo de visual barroco se estende à primazia de texto e interpretações de um elenco majestoso.

Em 2001 fazia mais de dez anos que o canal havia adaptado o Primo Basílio, também de Queiroz, muito elogiado por crítica e público. Durante a década de 90 levou pra TV uma série de contos da literatura clássica nacional como O Mambembe de Artur Azevedo e O Alienista de Machado de Assis.

Rejeitada drasticamente pelas emergentes classes C,D,E , a minissérie não significou um outro rumo à teledramaturgia. A emissora esperava no mínimo 30 pontos de ibope, chegava logo na primeira semana a 14.

A novela das oito no momento (Laços de Família, aquela em que a Dieckmann ficou careca) conseguia 54 pontos de média. Diferença tão gritante que Os Maias perdeu o horário de capítulos longos as terças para reprises de Casseta e Planeta.

Para conter o caos, o diretor geral Luiz Fernando Carvalho reeditou os capítulos ao gosto do grande público. Mais humor e sexo, menos ritmo de literatura, mas continuou rodando normalmente como era pra ser, com a intenção de distribuir depois a obra em DVD, então um formato relativamente novo.

E assim, é este DVD (ainda encontrável nas boas casas do ramo) que deve ser assistido, até por quem assistiu na TV e gostou bastante. Foram supridas as inserções de A Capital e A Relíquia, posto originalmente por Maria Adelaide Amaral para que o programa pudesse ter 40 capítulos, sem espichar de forma desrespeitosa Os Maias.

O único porém (único!) é a Globo não ter captado a produção em película. Teríamos agora muito mais qualidade nos televisores full HD, ao invés de imagem 4:3 borrada que tanto sacrifica a sensacional direção de arte e fotografia.

[Ouvindo: O Pastor - Madredeus]


17 comentários:

@fefelino disse...

Essa minissérie é de uma beleza assustadora. Quase uma pintura em movimento.

Acho que talvez seja a única que me dá vontade de ter o DVD porque vale a pena por tudo.

A cena que mais me marca é quando Marília Pêra, interpretando Maria Monforte, descobre o incesto de seus filhos. A câmera paira sobre ela e consegue passar toda a sensação de desespero que a notícia causa.

Bela lembrança.

Miguel Andrade disse...

Fefelino, vale a pena por tudo literalmente. texto, trilha sonora, atores...

Passei as últimas madrugadas assistindo pela primeira vez. Assustadora a qualidade!

Não dá pra parar de ver. É muita paixão!

Marília Pera involuntária como abutre sentenciador dá um nó no estômago só de lembrar.

Pri[s] disse...

Uma das minhas lembranças visuais mais fortes é uma cena de "Os Maias":

O corpo nu dos irmãos incestuosos contrasta com a escuridão ao redor da cama. Lindo.

Não lembro da trama em si, lembro de muitas imagens e da dramaturgia que eu criei em cima das cenas aleatórias que eu via.

Ah, o Luis Fernando Carvalho... O diretor dos meus sonhos! Acho que ele é um dos poucos diretores brasileiros que conseguiu uma personalidade visual (e um selo de qualidade). Tudo de melhor da TV da última década tem o dedo dele.

Miguel Andrade disse...

Pri[s], meu DEEEEUS! Que luxo o teu ter uma imagem destes marcada nas memórias infantis.

Na época eu estava deslumbrado com a Internet. Não assisti, principalmente depois que li que estava sendo reeditada pra agradar o povão.

Triste que só vão reconhecer esse diretor na posteridade. Angustiante essa repetição visível de reconhecimento posterior.

Não me empolgo facilmente com nada. Você (frequentadora daqui faz certo tempinho) deve saber disso.

Estou MORRENDO de pena de ter que devolver o DVD de quem emprestei. Preciso comprar isso!

Celso Machado disse...

Lembra que comentei contigo há uns meses sobre Ana Pó como Maria Eduarda n'Os Maias. Tá, não lembra. rs
ADORO essa minissérie, a melhor coisa que eu já vi na TV em toda a minha longa vida de noveleiro.
Outro dia estava assistindo de novo e mais uma vez fiquei chorando feito bobo na frente da TV.
Estranho eu achar que um amor incestuoso é o maior e mais lindo que eu já vi!

Leticia disse...

Passei um tanto batida pela minissérie. Fase de vida...

Mas gostaria de ver detidamente. Esse é um belo de um exemplo de que nossa arte É essa, e deveríamos ter mais conhecimento e respeito por ela.

Outra coisa que acho importantye dizer é que ela saiu de um LIVRO.

Imagina o quão rico seria se as pessoas pudessem usufruir da obra junto com a literatura, e fazer suas críticas e comparações a partir da obra primeira.

Não estava inteirada dessa editada em função dos gostos do povo. Sempre ele...

Miguel Andrade disse...

Celso, ahá, então foi você? Comentei ainda hj ao telefone sobre esse comentário que li aqui e que me fez querer assistir.

É a melhor coisa mesmo. Em termos de mundo inclusive.

Emociona não só no final, mas o tempo todo. Incrível!

O amor incestuoso me deixou em parafuso. É amor de homem e mulher, ou amor entre almas irmãs que se reencontram?

Brilhante!!!!!

Letícia, assim como eu! passei batido com preguiça do auê na mídia antes de começar.

Depois quando li que seria remontada decidi esperar. Esperei 10 anos!!!

Estou indo atrás do livro exatamente agora. Que lindo esse teu comentário completando o post!

Celso Machado disse...

Tenho uma simpatia enorme pela Maria Monforte, apesar de tudo. Essa cena que você capturou pro post é a minha preferida dela, quando ela se dá conta do seu potencial destrutivo e de como só consegue fazer o mal a quem está à sua volta (o marido, os filhos, o amante, o pai).
E acho ousadíssimo também que esse amor dos irmãos tenha se tornado tão mais sexual justamente quando Carlos descobre o parentesco (e no livro e transa com ela várias vezes e não apenas aquela flagrada por d. Afonso). Enfim, acho o ápice, o degrau mais alto, sou talifã!

Miguel Andrade disse...

Celso, adorável ~negreira~. LAMENTO na série ser a Spoladore. A mais fraca do elenco.

Fuçando os arquivos da Folha entendi a existência dela ali, esposa do diretor geral.

A Globo precisava controlar isso. Não se pode perdoar alguém sem a mínima aptidão profissional pegar um papel importante só pq dorme com o diretor.

Não é a toa que hoje faz aquelas novela terríveis na Record. Por outro lado, lamento a Vênus Platinada abrir mão do Leonardo Vieira.

Um dos melhores de sua geração. Não merece estar na toca emissora do Bispo.

Leonthius disse...

Desde a primeira cena que assisti em 2001 vi que se tratava de uma minissérie sui generis, pela beleza e poesia que ali residia, o tom nostalgico que as cenas remetiam eram sublimes. Depois que a minissérie findou-se não sosseguei até encontrar o DVD da mesma, o que ocorreu apenas em 2007, essa minissérie como o Miguel falou, foi o apice de qualidade produtiva da Globo, um marco por assim dizer, literatura e cultura em alta qualidade dificil de se ver hoje em dia...

O ponto alto entre tantos, foi a morte do Patriarca da familia, Dom Afonso da Maia,ao som da Missa de Mozart, arrepiante!

Celso Machado disse...

É verdade, Simone não está à altura da Maria. Mas, de certa forma, acho que o envolvimento amoroso no Luís Fernando se reflete na maneira como ele viu a personagem. Não sei se ele estava mais apaixonado pela Simone ou pela Maria, mas o encantamento é claro, o fascínio quase palpável, tanto que a Maria da minissérie me parece muito maior do que a do livro (ainda que ambas sejam imensas).

Mas é realmente ridículo esse nepotismo, que às vezes põe a perder o trabalho todo.

Também gosto do Leonardo, particularmente interessante como o Pedro, ao contrário do Fábio Assunção, que eu acho mediano.

Miguel Andrade disse...

Leonthius, que coisa isso não ter se repetido numa década. TV importante como é no Brasil não ter ido além daquilo em 10 anos.

tenho pra mim que foi um prenuncio dos tempos que vivemos hoje. Com o simplismo prevalecendo.

Celso, Os Maias é uma arapuca pra gente, que crescemos diate da TV. Temos que engolir o estrondoso desempenho de pessoas que até então foram medianas.

Bem reparado a paixão do diretor pela atriz com mote pro luzir da personagem. Inexplicável como as paixões retratadas na série.

DAVI VALLERIO disse...

Posso fazer o chato? acho um tedio tudo que tenha Luis Fernando Carvalho na direcao,nao assisti essa minisserie,sou Primo Basilio team,mesmo sendo bem menos monumental.Nada,tirando Nazareth Tedesco,mas nada depois de Anos Rebeldes da Rede Globo me faz suspirar.A Globo manda embora gala que sai do armario,Geanechini e uma excessao pq faz muito sucesso,Leonardo nao teve essa popularidade toda e nao foi casado anos com alguma famosa pra disfarcar como outros fazem.A emissora do bispo ainda e um refugo de artistas...estilo outlet

Dino Napoleão disse...

Impressionante como a Globo produziu uma obra relevante e marcante e hoje cadê o padrão de qualidade dessa emissora?
Tmabém acho um absurdo o que a Globo sempre faz com seus atores, coloca em posição de destaque e deposi derruba com velocidade colocando em papéis péssimos, só pode ser proposital.Poucos escapam dessa armadilha

Miguel Andrade disse...

Davi, não assistiu, mas devia assistir. Essa minisérie é bem diferente de tudo!

Ah, não creio que o caso do Vieira seja esse. Está na TV do Bispo antes de qualquer bafond envolvendo seu nome. Deve ser algo muito interno.

Dino, parece que o tombo serviu pra ela simplificar. Diretor, autores e (quase todos) os atores continuaram na casa, mas nunca fizeram nada próximo.

Mas Arósio e Assunção foram bem projetados após O Maias, hei?

Leticia disse...

Ô, Miguel..., você que é um fofo!

Miguel Andrade disse...

Letícia, hehehe!

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