sexta-feira, 3 de junho de 2011

Com a maldade na alma: Joan Crawford por Bette Davis

Essa “arte” sobre foto de Joan Crawford é obra de Bette Davis. Foi encontrada após sua morte em 1989, no caderno de recortes e colagens que guardou por anos.

Teria sido feito após a última tentativa de ambas trabalharem juntas novamente, em Com A Maldade na Alma (Hush...Hush, Sweet Charlotte) após o êxito de Baby Jane dois anos antes. As duas chegaram a filmar algumas cenas e até a fazer fotos promocionais.

Mas como sabemos, o projeto não vingou, com Crawford tendo que ser substituída. É uma das passagens mais divertidas da biografia de Bette Davis escrita por Charles Hugham (editora Francisco Alves), que você lê trecho abaixo.

“Dinheiro foi novamente o motivo pelo qual Bette foi forçada a tomar uma decisão espantosa no verão de 1964. Inacreditavelmente, concordou em co-estrelar com Joan Crawford outro melodrama de Robert Aldrich, Hush, Hush Sweet Charlotte. O script dava-lhe o papel de uma assassina suspeita de um novo crime, que é levada à loucura por parentes implacáveis. Trechos plagiados por atacado de outros filmes, confrontações desabridas, uma mixórdia de elementos de teatro de marionetes certamente não supriria a base para uma continuação digna do entretenimento proporcionado por What Ever Happened to Baby Jane?

Parte das filmagens foi realizada na Louisiana. Quando Bette chegou ao hotel, Joan Crawford estava majestosamente sentada no saguão, rodeada por vinte e cinco malas e maletas. Bette perguntou: "Que diabo você pensa que está fazendo?" E acrescentou: "Por que não veio no avião fretado, com o resto de nós?" Joan replicou: "Estou esperando por meus aposentos. Preferi viajar separadamente". Pronunciou tais palavras com um ar tão intolerável de arrogância que Bette sentiu ímpetos de esbofeteá-la.

Bette subiu para seu apartamento. Poucos minutos depois que se sentou e acendeu um cigarro de que muito necessitava, Joan começou a gritar e bater à porta. Mal-humorada, Bette escancarou a porta com violência. Joan quase caiu para dentro do quarto. Queixou-se: "Bette, aconteceu uma coisa horrível!" Bette, pouco disposta a mostrar-se simpática convidou-a friamente a sentar-se e perguntou através de uma nuvem de fumaça do cigarro: "O que foi?" Joan soluçou: "É horrível! Deram-me um apartamento ao lado da lixeira!" Bette resistiu à tentação de fazer o comentário óbvio e Joan, não encontrando simpatia por parte dela, saiu correndo do apartamento.

Logo de início, Bette anunciou que não filmaria uma única cena com Crawford. Isto seria virtualmente impossível, de vez que muitas das cenas que deviam fazer juntas eram essenciais para o script. Bette declarou que o diretor teria que fazer tomadas por cima dos ombros, usando doublées, sempre que houvesse diálogo entre as duas numa cena.

Isso estava fora de cogitação e Aldrich recusou-se a aceitar. A tensão entre as duas mulheres aumentou de tal forma que Crawford teve uma doença psicossomática definida oficialmente como "infecção das vias respiratórias superiores". Depois de filmar apenas três cenas, internou-se num hospital, de onde se recusou a sair. Quando finalmente retomou ao trabalho, estava tão amedrontada e nervosa por causa de Bette que só filmava três horas por dia. E acabou voltando para o hospital.

Bette deleitou-se. Os ataques de faniquito da Srta. Crawford encheram-lhe inteiramente as medidas. Então, ela passou entusiasticamente a fazer sugestões para a escolha de uma substituta. Sua primeira idéia foi convidar Vivien Leigh. Enviaram um SOS à Srta. Leigh, que se encontrava em Londres. Ela não respondeu. Finalmente, um representante do estúdio - a Twentieth Century-Fox - telefonou à Srta. Leigh, a qual declarou: "Eu talvez conseguisse olhar para o rosto de Joan Crawford numa plantação do Sul às sete horas da manhã, mas certamente não conseguiria olhar para a cara de Bette Davis nas mesmas condições".

Infelizmente, Bette tomou conhecimento do comentário e não achou graça. Então, resolveu apostar com maior segurança, escolhendo sua velha amiga Olivia de Havilland. Aldrich voou para a Suíça a fim de convencer Olivia, que já interpretara anteriormente papéis de assassina, mas que preferia representar personagens mais santos. Aldrich teve bastante dificuldade para persuadi-la, mas a idéia de voltar a trabalhar com Bette sobrepujou as dúvidas de Olivia, que viajou para os Estados Unidos em setembro. A produção permanecera suspensa por três meses.

Só uma pessoa não sabia da contratação de Olivia: Joan Crawford. Ainda no hospital, a Srta. Crawford ouviu pelo rádio a notícia de que fora substituída. Pouco ou nada pôde fazer a respeito senão atirar uma jarra de flores através do quarto, na direção da enfermeira mais próxima."

A primeira imagem é um oferecimento Chateau Thombeau

17 comentários:

Jumara Cardoso disse...

Eu já sabia do ódio entre essas duas atrizes maravilhosas, mas não sabia detalhes dessas histórias de rivalidade. Muito bacana, gostei!

Miguel Andrade disse...

Jumara, legal que curtiu! :D

Celso Machado disse...

Adoro essa biografia da Bette justamente porque deixa claro que ela também não era flor que se cheirasse, sem frescurinhas de fã-biógrafo.
Só acho que Com a Maldade na Alma se ressentiu da falta de Joan. Olivia é ótima, mas não é uma perigosa como Joan. Sabe aquela mulher que sai do ambiente e deixa no ar um cheiro de perigo?
Mas desse "causo" todo o melhor é a declaração da Vivien, xeque-mate na intriguinha de set de Bette! hahahahahaha

Miguel Andrade disse...

Celso, concordo. Fica a sensação o tempo todo de que o filme poderia ser melhor.

Leigh era danadinha também, não?

Olha, quanto à biografia, tem o gosto daquela da Liz Taylor escrita pelo Donald Spoto. Biografia com o retratado vivo...

Mas também acho um saco biografia puxa-saco escrita por fã. O que não é o caso.

Leticia disse...

Fofoca deliciosa. Adorei!

E uma lição: queime sus guardados (bem) antes de morrer.

Nayara disse...

Nossa! Genial a foto da Miss Crawford ''redecorada'' pela Bette KKKK,

Miguel Andrade disse...

Letícia, com uma coisa destas não há média durante a vida que sobreviva.

Nayara, "redecorada" foi ótimo! rs

Leticia disse...

Ah, Miguel, dá pra fazer um cálculo, sim! Por exemplo, decidir fazer isso hoje à tarde (brincadeirinha).

Mas já presenciei a "abertura de arquivos" de alguém que já se foi. Num rasgo de honestidade juvenil, ao perceber o conteúdo absolutamente particular de um caderno de notas, queimei, sob algum protesto dos presentes.

Acho que hoje faria de novo. Não acho justo com o morto.

Miguel Andrade disse...

Letícia, nem com os vivos. Morro de vergonha quando alguém pede pra pegar algo na bolsa. Fico super constrangido.

Imagina se for um finado?

Leticia disse...

É só não deixar. Eu não deixo. Venho com um educado "pode deixar que eu pego, essas bolsa é uma bagunça".

E quanto às tranqueiras, melhor começar a distribuir cdo, tendo em mira a expectativa de vida média do país, fazer o quê?

Se eu morrer hoje à tarde, conto com a dignidade não da família, mas a dignidade atribuída a mim esses anos todos, haha!

Tipo: o que ela gostaria que fizéssemos?

Miguel Andrade disse...

Letícia, não! Quando ME pedem na bolsa da fulana em questão.

Hahahah Preciso pensar no mesmo! E dar cabo em tanta coisa! hahaha

Leticia disse...

Ah, entendi. CONS-TRAN-GE-DOR!

Miguel Andrade disse...

Letícia, é! Coisa muito íntima pra se por a mão! hahaha

Alex Gonçalves disse...

Ainda não assisti "Com A Maldade da Alma", mas conhecia os atritos que aconteceu entre Bette Davis e Joan Crawford antes desta ser trocada por Olivia de Havilland. Acho que nunca existiu intérpretes que se repeliam tanto. A segunda e terceira imagem de divulgação emitem isto. Medo!

Em tempo: apesar de substituída, Crawford tem uma ponta relâmpago no filme, não?

Miguel Andrade disse...

Alex, não! Em alguns takes ela aparece como a prima Miriam, ao invés da Olivinha. Mas é preciso prestar atenção pra perceber.

Alex Gonçalves disse...

Ficarei atento. Obrigado pelo alerta.

Miguel Andrade disse...

Alex, legal!

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