sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Sentinela da TV: Passione

E chegamos à reta final de Passione, novela que a TV Globo exibe às 21h00. Só a emissora e o autor podem ter o que comemorar.

A emissora por ter conseguiu bons índices de Ibope, Silvio de Abreu por ter conseguido isso sem maiores esforços. Parece ter aprendido com as bobagens que seus colegas menos talentosos emplacam com estrondoso êxito.

Banal, repleta de clichê, furos e repetições de fórmulas já testadas antes pelo próprio Abreu. Perdi o interesse logo depois do segundo mês, sentindo minha inteligência desprestigiada.

Ninguém espera, evidentemente, um tratado sobre a revolução bolchevista em pleno horário nobre, ainda mais no Brasil, mas pelo menos o mínimo de maturidade dramatúrgica. Como se esperassem do lá de cá da tela a mais ínfima das inteligências.

Os tropeções começaram na escalação do elenco. Mariana Ximenes como grande vilã, é exigir muito dela ou apostar demais no encantamento cego do público com as malvadas.

Num rompante de modéstia, Ximenes chegou a declarar à imprensa que estava se inspirando em Bette Davis. Imagino Davis no além, praguejando horrores pela audácia da garota.

Dolorido acompanhar os draminhas na casa da Maitê Proença. A turma do café com leite!

Falando em turma, a de jovens encabeçada pela filha da Maitê mal disfarça estar ali só pra encher lingüiça nos capítulos. Não houve mínima pesquisa, ou cuidados maiores para que os diálogos soem menos ultrapassados e artificiais.

E os mistérios como aquele do Gerson? Ou a jornalista “interpretada” pela Dieckmann era muito tolinha para fazer escarcéu por algumas imagens pornográficas da internet, ou realmente apostaram na burrice do telespectador pra trocar em nome do patrocinador.

Totó morreu, mas não morreu e nunca vimos isso antes nas novelas de Silvio de Abreu... Outra coisa que já vimos aos montes é alguém com o coração divido ficando com todas as opções no final.

Desde Andréa Beltrão e os filhos de dona Armênia em Rainha da Sucata (1990), isso aconteceu outras três ou quatro vezes. Gagliasso (o Francisco Cuoco do amanhã, que graças ao porte de galã foi ficando...) na dúvida entre a filha da Regina Duarte e a da Ângela Leal (nepotismo, oi?) irá pelo mesmo caminho.

Mas nada me fez mudar tanto de canal, até ter desencanado de vez, do que o núcleo italiano. Se não há quem consiga fazer convincente, POR QUE colocar personagens estrangeiros?

TODOS, absolutamente todos (que dózinho da Balabanian...), às vezes esqueciam a nacionalidade do personagem. Na dúvida tascavam um “Figura-te”. Hahaha!!!

Ainda existe o grande assassino a ser descoberto. Por lógica seria o Mauro, ambicioso filho do motorista, criado à sombra dos patrões ricos.

Foi o maior beneficiário na morte do Mauro Mendonça logo no começo. Também daria sentido dramático na morte da esposa a lá Melodia Imortal, mesmo sendo 2010.

Pelo repeteco, (até a piada da coadjuvante que nunca pode falar, mas é acusada de ser tagarela!), deve ser alguém bem óbvio. Tipo Gianecchini mesmo.

Aquele que mesmo sendo ex-presidiário e claramente não ter noção do que é uma planilhinha de Excell, chegou ao topo de uma grande empresa. E com aval dos acionistas!

Pena que telenovela não consegue acompanhar artisticamente os avanços tecnológicos. Depois a Globo gasta os tufos em pesquisas pra entender porque a audiência não é mais a mesma...

[Ouvindo: 20th Century Boy – T.Rex]

4 comentários:

DAVI VALLERIO disse...

OLHA,Tb achei que essa novela era pra se chamar DECEPCIONE,mas por outro lado eu acho que não é o Silvio de Abreu,o Aguinaldo Silva ou o Gilberto Braga que tem que dar folego pras novelas.Eles ja fizeram a sua parte,mesmo dando uns foras,principalmente hj em dia.Acho que é a mesma coisa pedir pro Caetano Veloso inventar uma nova Tropicalia ou os Beatles um novo Sgt Pepper.São os novos que precisam mostrar para o que veio...

Miguel Andrade disse...

Davi, tem razão.

Acho admirável que esses tiozinhos, trabalhando no automático ainda consigam MUITA audiência. o povão não reclama.

Fala mal de uma coisa ou outra, mas não deixa de ver!

Leticia disse...

Acompanhei marromenos, mas ontem eu vi, com olho e tudo (já que geralmente só ouço, enquanto faço coisa melhor).

Acho que já disse isso aqui, mas novela é o que temos. Ninguém discute teatro, livro, nada. Só novela (e BBB, que é uma novelinha, só que bem mais barata). Acho, portanto, natural que as pessoas não gostem mas continuem vendo.

O que dá pra notar é que os diálogos estão cada vez mais didáticos e primários. Ninguém se refere, p. ex., ao pai como "meu pai". É "meu pai, o Totó", para um público cada vez mais distraído e sem intelecção ou profundidade.

E tb. fica cada vez mais evidente que a trama muda de acordo com a vontade do freguês. Um que num dia quer se matar, cheio de olheiras, e no dia seguinte está refeito, fazendo discurso contra as drogas.

O outro chega galã, bonzinho, vira um marginal e no fim todo mundo descobre que era bonzinho mesmo.

E outra: SP é um ovo, não? A Metalúrgica Gouveia tem uns quatro funcionários, mas Valentina e mais dois terços do elenco trabalham ou trabalharam em volta da família...

O networking de Bete Gouveia não é, definitivamente, empresarial...

Miguel Andrade disse...

Letícia, concordo! E além de trabalhar todos das famílias namoram entre si!

E não há conflitos maiores além de quem namora com quem e da tal metalúrgica. Que mesmo sendo metalúrgica tem um departamento de... Moda?

Em suma, enquanto outros países fazem produções cada vez mais maduras, e tratam de temas sérios, as novas vão em sentido contrário.

Um capricho técnico lascado, mas de texto miserável. Elenco cada mais medianos, etc.

Aliás, é a tristeza que chegamos em termos de atores. Está consagrado que o cume da profissão é a novela das 8 da Globo.

Qualquer um que chega nesse ponto desencana de se aprimorar. Vide a vilãzinha vesga, todo o núcleo da Maitê...

Interpretações que a gente via no teatrinho da escola agora são maioria no horário nobre da TV.

Sem falar naqueles rostos que a gente nunca viu, não faziam teatro, não passaram por Malhação e estão lá. Lendo texto na TV.

Filho não sei de quem, namoradinho do amigo do ator, etc.

Tenho consciência de que novelas são ótimas. Só não são pra minha compreensão.

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