quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Violeta Triste

“Sr. Diretor
Escrevo-lhe para dizer que, quando eu era mocinha, fui molestada por um homem, casado. .. Agora tenho 19 anos e um jovem, que julgo bom e sério, pediu-me em casamento. Eu, porém, estou indecisa: não sei o que lhe responder porque penso que deverei dizer-lhe o que aconteceu no passado. Ao mesmo tempo receio que depois dessa confissão êle não me queira mais.
Violeta Triste”


E cartinhas de leitores a revistas a gente sempre olha de soslaio. Multiplique a desconfiança quando se trata de uma publicação como a Família Cristã.

60’s ainda por cima!!!! Nem vou comentar a veracidade da carta... Mas a resposta estapafúrdia que ela receber!

A moça foi VIOLENTADA, está com medo de contar ao futuro noivo que não é mais casta... O tal diretor ao invés de encorajá-la contra a violência feminina passa-lha um sabão.

Respeitando a época da revista, claro, quando era socialmente essencial a preservação da virgindade para casar... Só que estupro sempre foi estupro mesmo no século passado.

Ela não está dizendo que "deu um mau passo". A canalhice do cara que respondeu (um homem obviamente) sugere que o hímen seja defendido até com a vida! Oi?

Transformação da vítima em culpada. E com as bênçãos da Santa Sé!

O texto arcaico seria até engraçado se não fosse vergonhosamente preconceituoso. E é esquisito que até hoje vemos opiniões muito parecidas, vindas de gente que nem religiosa é.

Para ler melhor, clique na imagem ou aqui.

Veja também:
Pergunte ao Guru


[Ouvindo: A Little Love Story – Asami Kuroda]

9 comentários:

Leticia disse...

Oh! Até que enfim obtive resposta para os meus tormentos!

Miguel Andrade disse...

Letícia, vai me dizer que você não preservou intacto o lírio de seu coração?

Pri[s] disse...

Ainda fico sem fala para coisas como essa... Parece tão arcaico que é difícil acreditar que tenha sido a menos de 50 anos!

E coisas como essa - transformar vítima em culpada - continuam acontecendo no mundo. Hoje, agora. É triste e revoltante pensar nisso.

Talita disse...

O Código Civil considerava a mulher relativamente capaz, ou seja, ela necessitava ou do pai ou do marido para convalidar os atos da vida civil, antes da CF/88.
Era implicitamente considerada propriedade do marido, portanto, ela sendo não virgem o casamento poderia ser anulado legalmente.

Precisa comentar mais alguma coisa?

Miguel Andrade disse...

Pris, SUPER continua acontecendo. Ainda está nas páginas policiais a historinha do jogador de futebol, né?

E mais triste ainda é ver mulheres apoiando a ideia de que a suposta "vítima" fez por merecer...

Talita, isso até pouco tempo! Somos atrasadíssimos em direitos civis, mas nos orgulhamos de ser o maior país católico. Enfim...

Leticia disse...

Eu lembro de um professor de biologia, o Robertinho, que defendia a supressão do hímen na maternidade, juto com o teste do pezinho, essas coisas.

Assim igualava todo mundo, ninguém teria com o que barganhar e ninguém apanhava por isso.

Miguel Andrade disse...

Letícia, ai, como assim? Imagina que coisa mais "O Herodes do hímen"!

Leticia disse...

Sim. Procedimento de rotina, sem maiores delongas. Igualaria as meninas no ato do nascimento. Assim não cresceriam nessa classificação cruel: "eu sou virgem, você não é". E vice-versa.

E os homens e a sociedade seriam obrigados a escolhas baseadas em critérios menos calhordas.

Miguel Andrade disse...

Letícia, e como estes estigmas ainda sobrevivem é uma loucura!!!

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